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A indiferença social

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  Uma das respostas a porquê escrevo (quando escrevo) é porque não escuto o que acho que deve ser dito, e porque se achasse pessoas que suportassem me ouvir, não precisaria escrever. Você quer sair na noite e ouvir alguém que chega lhe perguntando por quê você acha que a maioria age como se nada acontecesse? Por quê a maioria não quer falar das condições em que vivemos? Sentem a injustiça ou não? É indiferença ou não acreditam que a coisa possa mudar? Sou filho de Xangô, é por isso? Tenho dificuldades para conviver com a injustiça. Aceito que existe, e aceitem que é preciso falar sobre como acabar com ela. Comecei ler a Bíblia. Nem preciso falar do Lula, nem do Bolsonaro, com as pessoas, para que falar de esquerda e direita, bora falar de Cristo e cristianismo. De algum ponto em comum é preciso se assegurar, porque a humanidade está indo para puta que pariu se a gente não acordar para a vida, e começar fazer alguma coisa para mudar esse negócio. Porque ser humano nenhu...

Meu vizinho bolsonarista

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Com meu vizinho bolsonarista a gente se junta na porta de casa para fumar um e trocar ideia. “Você é o único petista patriota que conheço”, me disse quando viu minha camisa do PT amarela, com a estrela verde. Todos somos, respondi. Conversar com ele, é tudo um aprendizado. Como psicólogo e profissional da comunicação, é tudo um desafio. É um exercício para mim conseguir ouvir após ouvir algumas coisas, assim como para ele também é. Mas a gente gosta de trocar ideia, para mim é a possibilidade de conversar direto com alguém que defende Bolsonaro, mas que hoje me disse “bem teu presidente que defende a soberania". Como disse Galo da Luta em seu podcast Sem medo de errar, existe uma classe média que trabalha nos gabinetes, que trabalha na comunicação, que não conversa no cotidiano com pessoas pobres, e que está convencida que sabe como se comunicar com elas. Em 2018 ganhou Bolsonaro no ABC paulista. Existem pessoas que votaram nos dois. Existem pessoas que não votaram até hoje no Lul...

A verdeamarela é de todos, a vermelha só nossa

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  Como argentino acho uma maluquice a esquerda deixar a bandeira na mãos da direita. Assim que se eu vestir a camisa da seleção, viro golpista? Vocês entendem a maluquice disso? Assim que se a pessoa vestir a camisa da seleção com orgulho, por sentir orgulho do país, vira bolsonarista? Começaram com a coxinhada, com aquele patinho na Paulista. A utilização das cores para condicionar condutas não começou no Brasil. O respeitado crítico argentino, Daniel Link, após o golpe, participou de um evento literário, para o que foi convidado pela UFSC, com uma polo azul com patinhos amarelos. Os brasileiros têm tanto do que se orgulhar do Brasil. Por isso iniciei o processo de me naturalizar. Eu sinto muito orgulho de morar no Brasil, de experimentar a hospitalidade brasileira, a vida musicalizada, dançada, sofrida, mas com alegria. Porque deveria ser melhor, e será. Mas isso não impede que a gente diga que é bonita, é bonita e é bonita. Ainda mais em Salvador. Criei o projeto “A bandeira ...

A noite anterior e depois

 Traduzi um trecho do romance Quando Valetim chegou esse domingo à noite na casa da mãe, com a sua mulher, na sala estavam as três irmãs, conversando com um médico. O apartamento era pequeno, trinta metros quadrados; na sala os filhos, no quarto a mãe com a enfermeira, aguardando o final. A mais nova tinha chamado a ambulância do plano de saúde, querendo esticar a vida de mãe, e por isso ligou para os irmãos. Yolanda estava se afogando. O câncer enchia os pulmões de líquido laranja, mistura de sangue e pus, que Valentim veria sair da boca da mãe no dia seguinte. Mas ela não quer, disse o médico boliviano para a filha mais nova. Yolanda tinha decidido que não passaria mais por isso. Após a aspiração pulmonar, na clínica, passou dois dias sem conseguir se mexer, da dor que sentiu. O médico disse que além da decisão dela, a internação tinha o risco da infecção intra hospitalar. O dia anterior Yolanda tinha decidido parar de comer. A última coisa  que quis comer no sábado foi pi...

Yo te soñé

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  Yo te soñé. Soñé los almuerzos los domingos en tu casa. Te soñé abuela. Te voy a hacer. Siempre dijiste que me casaría con una negra, quien sabe en esa también aciertes. Me hacés tanta falta. Pero no la que soñé, la real. Pero la de antes de la internación. Yo te pido que me perdones pero yo quería a la de antes de la internación de vuelta. Metieron una mamá y me devolvieron otra. No conseguí aceptarlo, lo sé, fue una locura creer que te podía sacar del estado en que estabas. Pero lo intenté. No tenía cómo no hacerlo. Eras mi mamá. No había nadie que amase más en el mundo. Yo te creí sobre el poder del psicoanálisis. Hoy sé hasta dónde da. Hoy tenés un hijo espiritualizado, conseguí conectarme. Me hice la película con las películas que veíamos juntos, con las historias que me contabas de tu Nonna, porque entre tus nietos la Nonna sos vos. Prometo llamarte igual. No soportaba verte en la cama, con la persiana baja, el televisor prendido, fumando y así te pasaste los siguientes die...

Eu te sonhei

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  Eu te sonhei. Sonhei com almoços de domingo na tua casa. Sonhei com você vovó. Eu vou fazer você vovó. Você sempre disse que eu casaria com uma negra, quem sabe você esteja certa nisso também. Sinto muito tua falta. Mas não aquela que sonhei, a real. Mas a anterior à internação. Peço que me perdoe, mas queria de novo a que era antes da internação. Eles internaram uma mãe e me deram outra. Eu não conseguia aceitar, eu sei, era loucura pensar que conseguiria tirar você do estado em que estava. Mas tentei. Não tinha como não. Você era minha mãe. Não havia ninguém no mundo que amasse mais. Eu acreditei em você sobre o poder da psicanálise. Hoje sei até onde da. Hoje você tem um filho espiritualizado, consegui me conectar.   Fiz o filme com os filmes que assistimos juntos, com as histórias que você me contou sobre sua Nonna, porque entre seus netos você é a Nonna. Prometo te chamar do mesmo jeito. Eu não suportava ver você na cama, com as persianas abaixadas, a televi...

No Diário dele

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  Tenho mais quantos aniversários do PT pela frente? Só Deus que sabe. Mudou muito. Tem pouco povo, nós não eramos isso. Claro que sempre teve os Dirceus da vida, aqueles comunistinhas universitários, que nunca pisaram numa fábrica mas sabiam da classe trabalhadora mais que a gente... Coitado do Zé, colocaram ele lá no fundo. Eu devi me impor, mas a maioria disse que se colocassem ele na frente, a mídia falaria dele e não do que eu tivesse falado. Pra mim tanto faz, se para quem estou falando parece que não escutam. Será que fui eu que não mudei? Será que o povo mudou e agora sou eu que não estou conseguindo falar com eles? Isso não é possível, o povo mudou sim, mas fome é fome, eu sei o que é, o que passa uma mãe, o que passam os filhos, e assim tiver alguém passando fome nesse país eu sei pelo que essa pessoa está passando. Mas o que não sei é o que está passando nas comunidades mesmo. Com a presidência eu perdi esse termômetro. Eu não posso mais parar num buteco e bater um papo ...