Meu vizinho bolsonarista
Como disse Galo da Luta em seu podcast Sem medo de errar, existe uma classe média que trabalha nos gabinetes, que trabalha na comunicação, que não conversa no cotidiano com pessoas pobres, e que está convencida que sabe como se comunicar com elas. Em 2018 ganhou Bolsonaro no ABC paulista. Existem pessoas que votaram nos dois. Existem pessoas que não votaram até hoje no Lula, mas que após a dos Bolsonaros se colocando acima de tudo, não sei…
Meu vizinho é evangélico, eu do candomblé, assim que também converso com ele de espiritualidade. A conversa parte reconhecendo os valores cristãos. Fui criado por uma católica que me dizia que não precisava ir na Igreja todo domingo para ser um bom cristão, senão de tratar às pessoas com solidariedade, com respeito, com amor, sendo justos. Outro dia me perguntou entre o capitalismo e o socialismo de que lado ficava, falei que do socialismo, ele disse que do capitalismo, e perguntei de que lado achava que o Jesus ficaria.
Ele sonha com ser milionário, está seguro que será. “Acreditar que o sonho é possível”, canta Racionais. Meu vizinho contou-me que riu quando ouviu Racionais soando na minha casa. Moramos no Rio Vermelho, no meio do mato e ele sabe muito de plantas. E de animais. Um dia envenenaram a gata da vizinha, ele viu ela no quintal, viu que estava fragilizada, a barriga inchada, e pediu para eu misturar carvão com água. Deu isso para a gata beber. Não conseguiu salvar ela. Mas esse dia vi a sensibilidade que tem com os animais, com a natureza, morou um tempo na roça. Gosta de alimentar os macacos que andam pelo abacateiro.
Claro que a conversa com meu vizinho também é uma medição de pau, onde está cada um dos dois tentando ganhar a discussão. É o único cenário em que poderia brigar com ele, o cara luta jiu-jitsu. Me convidou várias vezes para ir na academia onde ele treina e sempre agradeci o convite. Outro dia a mulher dele, que em geral fica dentro da casa com a criança, e é campeã baiana de jiu-jitsu, abriu a janela e disse “desculpem interromper mas eu também quero falar, eu concordo que Israel não tem direito de andar invadindo a terra dos outros, mas aquela terra já estava escrita na Bíblia”, disse. Meu vizinho hoje trouxe a questão de Israel de novo, contou que tinha ouvido as críticas a Israel da mulher, mas continuou falando da história de Israel na Bíblia. Israel usa os evangélicos para defenderem o suposto direito deles sobre essas terra. Netanyahu em 1994 fez campanha com a Bíblia na mão, dizendo que esse era o título de propriedade.
Meu vizinho perguntou se eu conhecia como era a história de Israel na Bíblia, respondi que não, e ele começou contar. Ele não sabia da criação do Estado de Israel e também não sabia que a Palestina não é um país, que não tem Estado. Como que não?, respondeu ele. “Gaza não é um país? Palestina não é um país? E que são?”, perguntou e contei da criação do Estado de Israel, da expropriação de terras de palestinos que foi preciso para isso, da ocupação de terras palestinas além dos limites estabelecidos. Disso ele não sabia, na Igreja contam a melhor versão para Israel, mas da história recente não falam. Emprestei para ele o quadrinho Palestina, de Joe Sacco.
Meu vizinho é da era da internet, ele sabe da Deep Web, as vezes me conta do que acontece por aí, é da geração interessada nos bitcoins e acham que criança deveria ter educação financeira na escola. A gente também conversa pelo Instagram. Outro dia me enviou uma publicação, que dizia que o Estado criou as DREX para controlar o dinheiro das pessoas, que isso era uma ditadura, que era como a Venezuela. Não sabia o que eram as DREX, fui no site do Banco Central, li e passei o link para ele. Falei que estava garantida a liberdade dele continuar fazendo transações não controladas em cryptomoedas, que a DREX era uma moeda digital para quem quer fazer transações seguras. Dei como exemplo: se alguém quiser comprar um produto com alguém, paga com crypto e o produto não for entregue, cobra de quem se a pessoa não pagar e não tiver propriedade nenhuma no seu nome? Se você for vender um carro e quiser uma transação segura com moeda digital, e garantida de que você não perderá seu dinheiro se o produto não for entregue, pode fazer usando DREX. Isso é bom, disse ele.
Conversar com meu vizinho na rua, me lembra a minha infância e adolescência em Buenos Aires, trocando ideia com meus amigos na escada do prédio onde cresci, feito pelo sindicato de tabacaleros. A gente mora bem melhor que nossos vizinhos que moram em prédios, disse para meu vizinho. Ele concordou. A gente fica tranquilo na rua conversando, os cachorros dele sobem e descem a ladeira, dependendo a hora as galinhas e galos também andam por aí, na noite dormem nos galhos de uma árvore. Uma vez perguntei para minha vizinha se ela achava que a gente morava numa comunidade, ela disse que não, que moramos num condomínio ao ar livre. Morar em comunidade, independente do bairro onde estiver, faz bem. E é bom para exercitar comunicação.

Santi, boludo querido, gostei muito do teu relato, meu amigo.
ResponderExcluirSão tantas nuances nesse diálogo... acho que estás te saindo bem, aos poucos as ideias trocam de lado entre vocês.
Saudades.
Abração!
Obrigado meu irmão!
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