A indiferença social
Uma das respostas a porquê escrevo (quando escrevo) é porque não escuto o que acho que deve ser dito, e porque se achasse pessoas que suportassem me ouvir, não precisaria escrever. Você quer sair na noite e ouvir alguém que chega lhe perguntando por quê você acha que a maioria age como se nada acontecesse? Por quê a maioria não quer falar das condições em que vivemos? Sentem a injustiça ou não? É indiferença ou não acreditam que a coisa possa mudar? Sou filho de Xangô, é por isso? Tenho dificuldades para conviver com a injustiça. Aceito que existe, e aceitem que é preciso falar sobre como acabar com ela.
Comecei ler a Bíblia. Nem preciso falar do Lula, nem do Bolsonaro, com as pessoas, para que falar de esquerda e direita, bora falar de Cristo e cristianismo. De algum ponto em comum é preciso se assegurar, porque a humanidade está indo para puta que pariu se a gente não acordar para a vida, e começar fazer alguma coisa para mudar esse negócio. Porque ser humano nenhum veio para se relacionar com as pessoas digitalmente, perdendo o contato físico, as pessoas estão cada vez mais insensibilizadas....
Eles sabiam o que faziam. Sempre souberam o que faziam e nunca estiveram nem aí para nós. Sabiam dos efeitos da televisão, por isso a meta era colocar uma em cada casa. Sabem dos efeitos dos celulares, sabem como captar à atenção das pessoas e fazê-las escolher uma coisa que é contra seu próprio interesse, pela manipulação emocional que conseguem a partir da captura da atenção. Como é possível que um ser humano se ache no direito de fazer mal aos outros e defende-se dizendo: foi escolha deles? É de uma crueldade...
Essa semana uma amiga veio assistir um filme em casa. Acabei de dar aula nove da noite, cozinhei, para quando acabamos de jantar, ofereci uma comédia, minha amiga não quis saber mais nada de filme, tava com sono. Ofereceu assistir alguma bobagem para rir. Botou no YouTube um programa de debates entre “1 treinador vs 30 gordos”. Confesso que não imaginei que conseguiria rir, mas com algumas intervenções das pessoas gordas, consegui. Me identifiquei. O treinador um desses personagens de terror, cara branco, cabelo preto, penteado direto, topete, barba perfeita, vestido de preto, camisa polo apertada, com um símbolo: proibido ser gordo. O cara diz ter criado o movimento anti obesidade mais grande de América Latina. A técnica é velha: quando você sabe que a pessoa não tem informação alguma sobre um assunto, faz afirmações desse tipo. Onde é que está quantos movimentos anti obesidade existem na América Latina? Alguém viu alguma vez esse movimento se movimentar no Brasil? Mas qual é a resposta? Quantidade de seguidores nas redes sociais…
O debate entre o treinador e as pessoas obesas começou: “obesidade é uma escolha”. Assim que li isso falei para a minha amiga: esses merdas estão se espalhando pelo mundo. Nos Estados Unidos não tem sistema público de saúde porque eles dizem: "por quê com meus impostos tenho que bancar o tratamento da tua saúde, se quem escolhe o que faz mal para você é você. Assim que eu tenho que pagar o tratamento de teu câncer, quando no pacote dizia que fumar dá câncer? Você fez a merda e quem tem que pagar a conta sou eu?". Esses são os argumentos que utilizam. Passo o dia ouvindo e lendo esses filhos da maldade, para tentar entender como é que conseguem colocar às pessoas repetir as merdas que eles falam. Na base de quê fazem a manipulação mental? Da falta de informação. Se você não sabe de um assunto, e eu te contar bem a história, é muito provável que se você ouvir alguma coisa sobre o assunto, você lembre da história que ouviu e se tiver vontade de dizer alguma coisa sobre o assunto, repita. E as ideias ganham força por repetição. E as ideias têm as mesmas características que uma força, movimentam, geram resistência.
Imitando Brizola diria: “se hoje o velho Lenin andasse pelas ruas do Brazil diria: há um grau de verdade no que a direita diz”. Não tenho dúvida nenhuma que aquele treinador é bolsonarista. Pior que bolsonarista, o cara é supremacista. Na descrição do seu Instagram escreveu “Make Brazil Healthy Again”. Faça o Brasil saudável de novo. Claro que se sentasse para conversar com um cara desse sobre o assunto perguntaria: bora definir saudável? Bora pensar quando é que esse país foi saudável? Quando aqui a vida era saudável os europeus ainda não tinham chegado. Mas esse é um papo difícil para ter com sujeitos desse tipo. Coucheados, falam que nem pastor da Igreja, falam que sabem as respostas para tudo, e falam que têm títulos que não têm...
O ponto de verdade sobre a obesidade, é que há como parar de ser obeso e depende de nós. Claro que para isso é preciso ter forças para encarar o negócio. Não é mentira que a gente se faz mal, sabendo que está se fazendo mal e achando que não tem como fazer outra coisa. Essa tal da força de vontade, existe. Acontece que as vezes essa força tá fraca. E vivemos um tempo onde os sacanas que têm tudo, por herança, andam pelo mundo dizendo que o que têm é produto do esforço… Esforço é conseguir ouvir esse tipo de bobagem. Devo reconhecer que emagreci muito carregando sacos de material, e de entulho, da reforma da casa que comprei, por uma herança de um tio que não teve filhos. Menos bebida, mais exercício físico, e passei de obesidade tipo 1, a continuar gordinho. Mas pela primeira vez em mais de quinze anos, estou pesando menos de oitenta e cinco quilos, com um metro e setenta. Menos de oitenta é a meta, menos impossível, gosto de exercitar o queijo.
Foi só questão de tempo até o messias das pessoas gordas, que tinha a solução para as pessoas gordas deixarem de ser gordas, porque ele sabia por quê eram gordas, e que era quem colocava os assuntos para debater, propus como assunto: “Quem defende a obesidade está falindo o SUS”. “Porque eu com meus impostos estou pagando para tratar o que uma pessoa escolheu”, era o argumento do supremacista. Um homem obeso disse para ele “nós contribuímos com mais impostos, nós consumimos mais”. Com a minha amiga demos risada. Após o cara dizer que o Estado destinava R$3 bilhões em gastos com obesidade, passou dizer que não existiam programas contra obesidade do governo... Teve quem disse que pessoas magras também têm doenças e precisam tratamento, teve quem recordou que o SUS é um sistema universal, e eu fico puto de pensar “olha o que esses merdas estão colocando o povo para discutir: se a pessoa é responsável pela sua doença ou não, e por quê os outros tem que pagar pelo tratamento”. O supremacismo avança pelo mundo querendo tirar o Estado do meio. É preciso conversar sobre esses assuntos, todos os dias com as pessoas. Quando encontro uma pessoas dessas na rua e quer conversar de política, eu pergunto: você acha que o Cristo pensaria o quê? Que é para cada um por si?
Escrevo porque não sei fazer nada melhor. Escrevo porque tenho a ilusão de quem sabe gerar vontade em outra pessoa, de também sair de casa com vontade de falar desses assuntos com outras pessoas, porque estou convencido que não há outro jeito de mudar a realidade que se organizando com outras pessoas.

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