A noite anterior e depois

 Traduzi um trecho do romance

Quando Valetim chegou esse domingo à noite na casa da mãe, com a sua mulher, na sala estavam as três irmãs, conversando com um médico. O apartamento era pequeno, trinta metros quadrados; na sala os filhos, no quarto a mãe com a enfermeira, aguardando o final. A mais nova tinha chamado a ambulância do plano de saúde, querendo esticar a vida de mãe, e por isso ligou para os irmãos. Yolanda estava se afogando. O câncer enchia os pulmões de líquido laranja, mistura de sangue e pus, que Valentim veria sair da boca da mãe no dia seguinte. Mas ela não quer, disse o médico boliviano para a filha mais nova. Yolanda tinha decidido que não passaria mais por isso. Após a aspiração pulmonar, na clínica, passou dois dias sem conseguir se mexer, da dor que sentiu. O médico disse que além da decisão dela, a internação tinha o risco da infecção intra hospitalar. O dia anterior Yolanda tinha decidido parar de comer. A última coisa  que quis comer no sábado foi pipoca. Pediu para Valentim levar para ela “pororó”, como chamam em Rosario à pipoca, mas o filho respondeu “não tenho como levar, tou indo numa reunião política”. E levou para essa reunião o chocolate preferido da mãe.

Ela já decidiu, disse Valentim para Soledad. A irmã mais nova já tinha resistido o diagnóstico, já tinha desligado o oxigênio, na clínica, achando que era só a mãe se esforçar, para ela melhorar. Valentim também já tinha acreditado nisso. Ela decidiu acabar logo com isso, disse Valentim para a irmã. Para isso precisaria sedação, respondeu o médico. A morfina não resolve?, perguntou o filho. Isso só é para a dor, respondeu o médico, seria preciso o médico dela indicar sedação. Mas na caixa de remédios tem ansiolíticos, que deprimiriam o sistema nervoso dela, respondeu o filho psicólogo. Eu não posso dizer isso para você, respondeu o médico. Mas eu sei, respondeu Valentim. No dia seguinte, o filho moeria os comprimidos para dar para a mãe.

Quando o médico foi embora, as irmãs mais velhas voltaram para casa, a mais nova disse que ficaria mais um tempo, e Valentim disse que levaria à mulher em casa e voltaria, mas não voltou. Quando chegou em casa deitou com a mulher. Tentou evitar mais uma imagem que não conseguiria esquecer. Yolanda já tinha dado dessas de mais para ele. Cortou os pulsos na frente dele, se enfiava de baby doll, na cama do filho, pedindo conchinha, pedindo para ele esquentar ela; além das barbaridades do pai dele que ela tinha contado. Mas ainda assim, ele não conseguiu. No dia seguinte, a morte da mãe lhe aguardava.

Acordou, tomou café da manhã com Luciana, levou ela de carro até o trabalho, e depois foi ver a mãe. Quando chegou, na porta do prédio estavam as duas irmãs mais velhas. Que bom que você chegou, disseram elas, tá no final, já está inconsciente. Isso que vocês acham, respondeu o irmão. Valentim encarou subir ao apartamento, as irmãs foram atrás. Valentim cumprimentou o enfermeiro da mãe. Foi até o quarto, viu o líquido laranja saindo da boca e a compressa que o enfermeiro colocou no ombro, para o liquido não sujar a roupa. O corpo de Yolanda puxava por viver. Já deu ansiolítico?, perguntou Valentim ao enfermeiro. Já, respondeu o profissional. Pode dar mais?, perguntou Valentim. Quer que registre no prontuário?, respondeu o enfermeiro. Não precisa, respondeu o filho. O enfermeiro foi na cozinha, moeu dois comprimidos, misturou com água, e botou numa seringa. Entrou no quarto, disse para Yolanda “mainha abre a boca”, e Yolanda virou o rosto do lado para beber o que iria receber,  e as filhas se olharam. Eu disse, disse Valentim.

Após trinta minutos Yolanda continuava respirando. Valentim foi até a sala, pegou da caixa de remédios o blister dos ansiolíticos, foi para a cozinha e começou moer todos os comprimidos. Já tinha visto o que o enfermeiro fez, era só repetir. Quando o enfermeiro viu ele botando o pó com água na seringa, disse para Valentim: deixa que eu faço, melhor você não carregar com isso. Valentim agradeceu. Na segunda vez Yolanda não reagiu. A cabeça dela já estava ladeada, e o enfermeiro botou o líquido dentro. Para as irmãs a cena foi forte de mais. Disseram para Valentim não ficar só, mas o filho não teve como deixar a mãe sozinha diante da morte. As irmãs foram embora, Valentim ficou do lado de Yolanda, segurando a mão dela.

Ficou contando a respiração. Um, dois, três, quatro, contava o tempo entre inspiração e a expiração. O corpo de Yolanda parecia que mordia o ar. É mentira que o sentido da vida é a morte. Até o último segundo a vida puxa por viver. Yolanda deitada na cama, a cabeça ladeada, a boca cheia daquele líquido laranja e o filho segurando a mão da mãe. Um, dois, três, quatro, contava Valentim. Depois foi um, dois, três, e aí foi que ele disse para o enfermeiro: avisa minhas irmãs. A mais nova estava em casa, devia pegar um trem e em trinta minutos estaria na casa da mãe. As duas mais velhas aguardavam numa pizzaria a notícia final. Um, dois, aí foi quando Valentim pegou o celular e enviou mensagem para as irmãs: é daqui a pouco.

Yolanda faleceu antes das filhas chegarem. Valentim contou: um, dois, um, dois, um, um… Sabendo que as irmãs estavam a caminho, foi até a sala, pegou gaze e fita médica da caixa dos enfermeiros. Voltou ao quarto, limpou a boca da mãe por dentro, o rosto dela, e fez uma compressa nova, para as irmãs não carregarem com aquela imagem. Enviou mensagem para Luciana. Aguardou as irmãs chegarem. Quando as irmãs mais velhas chegaram, a do meio deito do lado da mãe. A mais velha ficou fora do quarto olhando o corpo. Ele saiu para procurar uma casa de velório logo, temia que a mãe começasse feder, e ninguém conseguisse tirar esse cheiro da cabeça.

Comentários

  1. O espaço físico é pequeno, mas carrega uma carga emocional imensa, ficou bem descrito a tensão que os personagens sentem em um momento tão delicado.

    Quando li "O câncer enchia os pulmões de líquido laranja" na mesma hora me veio a mente a expressão "vida escorrendo pela boca" , metafora para vida de esvaindo.

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