A verdeamarela é de todos, a vermelha só nossa
Como argentino acho uma maluquice a esquerda deixar a bandeira na mãos da direita. Assim que se eu vestir a camisa da seleção, viro golpista? Vocês entendem a maluquice disso? Assim que se a pessoa vestir a camisa da seleção com orgulho, por sentir orgulho do país, vira bolsonarista? Começaram com a coxinhada, com aquele patinho na Paulista. A utilização das cores para condicionar condutas não começou no Brasil. O respeitado crítico argentino, Daniel Link, após o golpe, participou de um evento literário, para o que foi convidado pela UFSC, com uma polo azul com patinhos amarelos. Os brasileiros têm tanto do que se orgulhar do Brasil. Por isso iniciei o processo de me naturalizar. Eu sinto muito orgulho de morar no Brasil, de experimentar a hospitalidade brasileira, a vida musicalizada, dançada, sofrida, mas com alegria. Porque deveria ser melhor, e será. Mas isso não impede que a gente diga que é bonita, é bonita e é bonita. Ainda mais em Salvador.
Criei o projeto “A bandeira também é nossa”. Ando pelas praias oferecendo camisas do PT amarelas, com a estrela verde. E vice-versa. A galera do reggae prefere a verde. É como disse Lula, o povo quer falar de política. Mas tem uma galera que só faz política sob teto: gabinete, restaurante, casa em condomínio. Poucos: sindicatos. PT nas favelas, onde? Já em 2014, numa favela de Porto Alegre, ouvi: o PT só sobe de dois em dois anos. A camisa é um detetor de petistas com vontade de falar de política. Eu nem preciso chegar até eles, são as pessoas que puxam conversa. E que concordam que vestir a camisa do Brasil não é igual que ser golpista, nem coxinha, nem de direita. O PT, como é filho de comunistas, foi formado na ideia de fortalecer uma força internacional, que nasceu na Rússia. Lula vem insistindo na necessidade de se apropriar da bandeira do Brasil. Mas ainda no PT há muitos que subestimam a inteligência dele.
O cara dirigiu o país mais forte da América Latina, como não vai sentir orgulho de ser brasileiro? Lula de camisa da seleção seria visto como? “Lula sempre foi reformista”, vão repetir alguns no PT? Revolucionário não veste a bandeira do seu país? E você por quê usa boné verde militar, com a bandeira de Cuba? A esquerda venezuelana também viste a bandeira do seu país; os sandinistas na Nicarágua também usam a bandeira nacional. Montoneros, a guerrilha peronista argentina, também usava a bandeira argentina. Qual o problema que a esquerda brasileira tem com isso? Vocês acham que o certo seria afastar à maioria da ideia de defender a Pátria? Porque falar de pátria seria só coisa da direita? A esquerda brasileira precisar ler o Brasil dentro da América Latina. Porque a região é uma grande Casa Grande. Muda a língua, há diferenças quantitativas, mas não qualitativas; em toda a região aconteceu o mesmo. Todo país nesse continente tem uma história de escravidão. O Papa Francisco, quando era o bispo Jorge Bergolio, disse que ainda em Buenos Aires tinha escravidão. Quantas vezes vemos nas notícias que mais uma vez resgataram pessoas escravizadas em fazendas? Usar o argumento “mas o Brasil é diferente”, só mostra o desconhecimento sobre a história da América Latina que a grande maioria da esquerda brasileira tem.
Um brasileiro é herói nacional na história da Colômbia, da Venezuela e do Equador. Você sabia? Há outro importante Inácio na história da América Latina, também pernambucano: José Inácio de Abreu e Lima. General de Simón Bolívar, herói da Grã-Colômbia. Soube dele lendo Laços de confiança. O Brasil na América do Sul, de Celso Amorim. O PT deveria estar dando esse livro como formação para a militância. Para conhecerem a contribuição do PT na história da diplomacia brasileira; e da contribuição ao país do melhor diplomata da história do Brasil, Celso Amorim. A assinatura de Amorim está na criação do Mercosul, da Unasul, da CELAC, do IBAS, dos BRICS. Existiu uma coincidência de interesses com o PT no governo e a a história diplomática de Celso Amorim, conduzindo Itamaraty: a defesa nacional, exigir o reconhecimento do potencial do Brasil no mundo, e a força do Brasil no mundo para defender a paz. Quantos países são chamados pelas grandes potências para mediar conflitos internacionais? Com o PT no governo, o Brasil participou da construção dos BRICS.
Mas antes o Brasil fez parte da construção do IBAS, uma associação entre o Brasil, Índia e a África do Sul, para a criação de um fundo de cooperação; que os russos e os chineses olharam com interesse, e deu nos BRICS. Conforme Celso Amorim disse em 2005, na abertura do Seminário IBAS sobre Desenvolvimento Econômico com Equidade Social: “O IBAS talvez tenha sido a primeira iniciativa de política externa do Governo do Presidente Lula”. Como não lembrar de Marco Aurélia Garcia, e a sua contribuição ao reconhecimento do Brasil no mundo. É possível pensar em Marco Aurélio Garcia, sem levar em consideração sua experiência morando no Chile? Claro que sem Lula no governo o Brasil não fazia isso, mas uma esquerda latino-americana consegue fazer isso se não é brasileira? O potencial é do Brasil ou da esquerda? O que fica claro é até onde chega o Brasil quando é o PT que está no governo. A presidenta do Banco dos BRICS é brasileira, Dilma Rousseff.
O Lula costuma dizer que o PT é o maior partido de esquerda na América Latina. Isso mostra a historia dos Partido Comunistas medirem os partidos por quantidade de filhados. Em todos os países de América Latina a militância dos PCs cresciam no partido, conforme a quantidade de fichas de filhação que levassem. Mas a política é para ser medida em termos de força. Qual força política tem mais força? O PT que demorou seis anos para voltar ao governo, após um golpe de Estado parlamentar; ou o Movimento Ao Socialismo boliviano que, após um golpe de estado aberto, com tanques do Exército nas ruas, com Evo Morales e García Linera fugindo pelas yungas; com a direita invadindo e destruindo as casas deles; com a golpista que assumiu a presidência invadino o Palácio Quemado com uma Bíblia na mão; e que recuperou o governo onze meses depois, botando logo a golpista na cadeia? Sabemos que foram mais para as ruas gritar Fora Temer!, que Fica Dilma.
Após a votação de abril de 2016, alguns na UFSC andávamos de cara triste. Terça seguinte à votação, o professor perguntou para um colega: por quê essa cara?. O colega respondeu: pelo que aconteceu; e o professor respondeu: “ah, por isso?! É a história do Brasil, avanços e retrocessos”. Fiquei puto, e não consegui me segurar. Pedi para o professor me contar quando foi que na história do Brasil tinham tirado quarenta milhões de pessoas da pobreza? Quando que o Brasil tinha servido para defender a democracia na região, e não ficar omisso diante de outros golpes de Estado? Quando que tinham ingressado nove milhões de filhos de trabalhadores nas universidades? Quando que tinham criado mais universidades? Quando que o Brasil tinha conseguido o reconhecimento mundial que merece? Porque também não é que com o PT no governo começou a história da diplomacia brasileira, nem o reconhecimento da importância da unidade latino-americana. O primeiro artigo da Constituição brasileira ordena ao Brasil buscar “a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.
Lendo Celso Amorim também soube de Joaquim Nabuco, diplomático brasileiro, patriota, defensor da abolição da escravatura, defensor da unidade latino-americana. O MST encontra em Nabuco um parceiro na defessa da reforma agrária. No artigo “Campanha abolicionista no Recife: eleições de 1884”, Nabuco escreveu: “não há outra solução possível para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e vossos filhos, pela posse e cultivo da terra. É preciso que os brasileiros possam ser proprietários de terra, e que o Estado os ajude a sê-lo”.
Ainda que a História tenha se manifestado com diferenças nas diferentes regiões da América Latina, há uma história comum. Ainda que as lutas contra o imperialismo europeu no Brasil, tenham tido suas particularidades em cada região, cada região teve uma expressão da resistência anti-imperialista. A resistência anti-imperialista no continente nasceu o dia que um europeu botou um pê aqui. Resistiram povos indígenas. Teve Zumbi dos Palmares, a Revolta dos Malês. A Bahia tem seu dia da independência. Os gaúchos comemoram a batalha de Farroupilhas, além do resultado. Em Pernambuco foi do jeito de lá, de onde saiu Luiz Inácio de Abreu e Lima, filho do Padre Roma, que participou da revolução pernambucana, em parceria com a maçonaria internacional. A maçonaria teve participação em todas as revoluções na América Latina. Até na revolução haitiana a maçonaria esteve presente.
A esquerda brasileira não tem motivo nenhum, mas que a história do comunismo no mundo, para não pegar com orgulho a bandeira do Brasil. Sim, o Brasil tem a história da escravidão mais tortuosa da região. Não há como pensar o Brasil sem a escravidão e os escravocratas. Que ainda estão aí. Assim que tiveram mais força que a gente, e chegaram no governo, levaram os direitos trabalhistas para antes de 1943. Quantos anos de carteira assinada no setor privado têm os membros da Direção Nacional do PT? Qual que faz parte da maioria da população, conforme o IBGE? Mas isso não é culpa do PT. O PT não é responsável pelo afastamento da maioria da população da política. O PT não é responsável que só em 1985 os analfabetos brasileiros ganhassem o direito facultativo de votar. Claro que não há como pensar a queda do analfabetismo no Brasil sem contar a história do PT no governo. Os petistas precisam levantar a força moral.
Não é opinião minha, simplesmente concordo com a caraterização do Lula. Em 2013 Lula fechou um encontro do PT dizendo que tinham que levantar a moral, que não era possível que qualquer cara com cara de 171 chamasse eles de bandidos, e baixassem a cabeça. Não há como discutir que o mensalão foi uma bomba na moral dos petistas. A maioria dos votantes do PT evitavam defender o governo, porque não queriam ouvir que estavam defendendo bandidos. Muito candidato tirou a estrela ou o vermelho dos santinhos. Em 2016 trabalhei na campanha de um candidato a vereador do PT, e propus sair com: “Cadê o bandido do PT?”. Propus mostrar como ele morava, que era muito diferente com a ideia que vinha na cabeça das pessoas quando você pedia para imaginar como era a vida do presidente do PT nos municípios. As contradições são uma porta muito importante para entrar na cabeça das pessoas. Por isso o mensalão bateu como bateu: não era para o PT fazer aquilo. Por isso as camisas do PT verdeamarela chamam tanto a atenção.
A história do Brasil não pode ser pensada sem levar em consideração que faz parte de uma região que sofreu e sofre o colonialismo europeu. Ainda os franceses têm colonias, no Caribe e aqui do lado; e ainda os ingleses estão nas Ilhas Malvinas. O fortalecimento da defessa brasileira, a partir da parceria militar com a França, fortaleceu a defesa na região, declarada região de paz. A militância de esquerda no Brasil tem que ter o maior orgulho de até onde Lula levou o Brasil no mundo. Uma das primeiras coisas que fizeram após o golpe, usando a Lava Jato, foi prender o vice-almirante da Marinha, e engenheiro nuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, que estava desenvolvendo um submarino nuclear. Com o PT no governo foi que o Brasil conseguiu atingir o reconhecimento mundial que merece. Merecimento que não nasceu com o PT no governo. Existe uma história da diplomacia brasileira com América Latina anterior à chegada do PT no governo. Mais foi com o PT no governo que foi possível realizar o sonho de Bolívar e San Martín: a unidade latino-americana.
Com a história que as forças nacionais e populares brasileira têm na região, como é que a esquerda brasileira tem problemas para vestir verde-amarelo? Como explicam, se não acharem que a origem da história de vocês está na Rússia, e não na América Latina, que sejam a única esquerda latino-americana que não utiliza a bandeira nacional? Com o maior orgulho a esquerda brasileira deveria vestir a camisa do Brasil, o PT no governo levou o Brasil além de onde estava. Perón dizia que se ficava só com os melhores, iriam ser “poquitos”. O PSOL usa camisa amarela e vermelha, os do PCdoB vermelha com amarelo. Sobram motivos na história brasileira para a esquerda brasileira vestir com orgulho a camisa do Brasil.

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