Carnaval no Nordeste de Amaralina


 

Repeti. Ontem voltei para o Nordeste. O que é esse lugar. As pessoas que contei-lhes que iria, ficaram com medo, falaram para me cuidar. “Lá é Comando Vermelho”, me disseram. É por isso mesmo que foi o carnaval onde mais seguro me senti. Não pode roubar, não pode brigar, lá não tem tiro, facada, senão o cara desce. Assim que andei de celular em mão, achei que meus olhos iriam virar. Eu sinto vergonha de imaginar a cara de tarado que eu devia ter. Quanta pessoa bonita, pelo amor de Deus. Dessa vez estive de camarote, mesmo. Primeiro dia, o camarote protegeu da chuva, ontem ganhei bobó de frango e caldo verde. Ideal para o frio que senti pelo vento e a chuva.

Um amigo do movimento negro trabalhou na organização e produção do Camarote Oficial Mestre Bimba, junto com outras pessoas do bairro, um espaço mágico. Me contaram que lá era a sede dos Diplomatas de Amaralina. Olhem que nome bonito. 

Bom, eu quero dizer que as pessoas que conheci aí, cada uma é uma excelente diplomata do Nordeste. A paixão com que organizam o carnaval, a energia boa que carregam, contribuindo para colocar o carnaval do Nordeste na agenda grande do carnaval de Salvador. Para o próximo ano: quer carnaval seguro, sem sentir alguém enfiando a mão no teu bolso? Vai no Nordeste de Amaralina. A comida deliciosa, as famílias na calçada, a cozinha montada na sala, a cerveja bem mais barata. Heineken por sete reais, meu bem.

Ontem estive em mais um camarote. Foi de manhã, lá na Mudança do Garcia. Estive no espaço que organiza o vereador Silvio Humberto. É inacreditável a feijoada que faz a irmã, Márcia. O local é o térreo de um prédio. Sai para comprar uma, tou dançando no lugar, olho do lado e vejo a Luedji Luna chegar. Cortou a respiração. O que é a energia dessa mulher. Assisti o show dela no Pelourinho, fiquei alucinado. O espaço que ocupa. A presença que tem no palco. E esse vestido... A Academia Brasileira de Letras, na definição de tesão tem que colocar “o que tem a Luedji Luna pela vida”. Ontem cheguei perto dela, perguntei se podia pedir uma foto. Ela e as amigas ficaram surpresas. Não sei se porque branco, porque homem, pelo sotaque, mas achei. Ela foi super gentil e me deu uma selfie.

A política tem uma coisa maravilhosa e é que te aproxima de pessoas do bem. Claro que também está o ambicioso, aquele que entrou só pelo poder, mas na esquerda são pessoas que querem um mundo mais justo, sem racismo, sem machismo, sem violência de gênero, mas não vou me estender muito não e virar professor sem cátedra, porque queria tentar só falar da festa, a risco das críticas que possa receber. Mas minha gente, vida com pimenta é outra cosa. Quanta mulher bonita. E quanta alegria na rua. Em todo carnaval que fui vi cadeirantes. Vi pessoas sem perna pulando carnaval. Vi criança tetraplégica com o gozo do carnaval nos olhos. A magia do carnaval na Bahia é indescritível. Bota todo mundo para dançar. Só sentir para entender.

Tou indo para o último dia de carnaval sem ter dado nem recebido um beijo. Será que hoje eu ganho? Será que ganho coragem? Para quem quiser um carnaval diverso, mas tradicional, com o respeito à ancestralidade na rua, no trato entre as pessoas, no ritmo em que andam, todos os tipos de balanços na rua, vai no Nordeste de Amaralina. Carnaval, lindo, mas lindo mesmo. Seguro. E ainda tive mais um privilégio de camarote. No Mestre Bimba comi bobó de frango, não dava para acreditar o tamanho dos camarões. E bem tarde, lá, após meia-noite, apareceu uma panela com caldo verde, mais da magia da Márcia Pita na cozinha.

Último dia de carnaval. Hoje homenagear Marizete na escadaria do Passo. Senti ela nesse carnaval, vi ela em várias pessoas. Amanhã o ano que começa, até dezembro que para tudo e começa o tempo de festas de novo.

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