A bandeira também é nossa

Quem já me conhece, não precisa ler esse artigo. Já me ouviu várias vezes. Finalmente fiz as camisas do PT amarelas com a estrela verde e vice-versa. Lula não diz que é preciso voltar falar de política com as pessoas? Com essa camisa você nem precisa ir até as pessoas para falar de política, elas chegam até você. É um shock tão grande o que produz, que as pessoas petistas que andam por aí querendo se manifestar, chegam até você e falam.

Como argentino, para mim é uma maluquice a esquerda brasileira deixar a bandeira do Brasil nas mãos da direita. Assim que se você vestir a camisa da seleção vira golpista? Não é pelo Brasil que a gente luta? E vou deixar a bandeira com eles? O PT é a única esquerda na América Latina que chegou no governo e prescinde da bandeira  nacional. Os venezuelanos usam, os cubanos usam, os bolivianos fizeram da wiphala bandeira oficial do Estado e usam. Mas a esquerda brasileira é filha de comunistas e cresceram ouvindo que nacionalismo é igual que fascismo. E num momento como o que a gente está vivendo, onde a meta do governo foi garantir unidade na defesa da democracia, a esquerda brasileira deveria vestir verde-amarelo e discutir realmente o Brasil no mundo.

O potencial da camisa está na contradição. Como PT e verde-amarelo? A contradição é uma grande porta de entrada na cabeça das pessoas. Eu vou olhando a reação das pessoas com a camisa, umas cutucam com a do lado, e marcam-me com a cabeça; outras falam: é isso, Lula; PT mesmo. Em três dias vi duas pessoas fazendo o sinal da cruz após ver a camisa. Eu vejo a história do PT no povo, no ambulante cabeça branca, em cima do viaduto na entrada do Corredor da Desgraça, que viu a camisa, começou pular, e quando cheguei perto me perguntou se era do bloco do PT. Nas ambulantes que pediram camisas, achando que estava dando. No Rio Vermelho, no Largo da Mariquita, um joven de uns trinta anos, queria saber onde seria a festa do PT. Eu fiquei perguntando o mesmo quando o PT fez 45 anos…

A moral do PT está muito baixa e é preciso levantar a moral como tarefa principal. Lula vem falando disso desde 2013. No último plenário do PT desse ano, Lula disse “qualquer um com cara de 171 chama vocês de ladrão e vocês baixam a cabeça”. O mensalão foi uma bomba na moral petista. Então, o único jeito de levantar a moral da tropa, é quem conduz chamar para a luta. Uma causa na que a maioria concordar e essa pode ser: a reforma política. O Brasil tem um problema estrutural: vota pessoas, não partidos. O presidente pode ganhar no primeiro turno por maioria e não ter nem 40% na Câmara. Dos cinco puntos que Dilma colocou como metas, após as manifestações de 2014, o único que não conseguiu realizar foi a reforma política. Porque até no PT é resistida. O único que continua batendo na reforma política é Dirceu. O Brasil precisa uma reforma política, não o PT. Lula poderia encarar essa batalha e quem seria contra uma reforma política? O poder legislativo não foi feito para financiar obra pública nas cidades, nem associações de bairro.

Lula está querendo levar a disputa política para as ruas. Hoje sabemos qual lado mobilizaria mais. Convocar às ruas para defender a democracia? Já vimos quantas pessoas foram para as ruas no último 8/1. Convocar às ruas pela reforma política, como garantia de defesa da democracia, é outro negócio. Com o sistema de lista única, tiravam Dilma em 2016? Dá para fazer as contas, levando em consideração que de 2002 até 2014 o PT ganhou todas as eleições presidenciais. América Latina precisa da reforma política do Brasil. Porque a economia brasileira para e param todas na região. Não é possível que para tirar alguém do Executivo da principal potência da região, seja suficiente com uma mentira e um bando de mercenários dispostos defendê-la. A segurança da região está nessas mãos? O Brasil não é isso. Acontece que isso afasta à população da política. E o PT tem história de estar perto da população, de fazer parte da população, até que se afastou e hoje precisa voltar.

Mas vai voltar quem? Quem fazia esse trabalho no mínimo tem mais de cinquenta anos, a maioria passou dos sessenta. Porque quando o PT passou governar, precisou dos quadros de base no governo, e Brasília é um câncer para esse país. Afasta os políticos da comunidade. Os que estão nos gabinetes, em favela só foram em campanha. Pergunta qual é que vai visitar amigo em comunidade, qual é que vai almoçar numa comunidade, qual que vai em comunidade porque gosta de estar lá? Ocupam espaços de toma de decisão para resolver problemas dos pobres, pessoas que nunca pisaram numa favela. Como diz García Linera, ex-vice-presidente da Bolívia, e o maior intelectual político do mundo, quem tem que tomar as decisões são os membros do povo, o lugar dos técnicos é compartilhar nosso conhecimento, nossas análises, para eles tomarem a melhor decisão, mas não decidir por eles. Só olhar o Diretório Nacional do PT, olhar os dados de população do IBGE, e dizer se é representativo do povo trabalhador ou não.

Às bases a gente vai com um serviço solidário para prestar. A meta é a comunidade organizada, mas antes a gente precisa passar  por várias etapas. A primeira: ganhar moral. Você chega de fora, diz que quer ajudar, a pessoa fica pensando: sim, imagino, mais um vindo fazer política para depois pedir voto. A gente terá que demostrar que não é mais um. Como? Com esforço, cumprindo com a palavra, chegando no horário marcado, indo assim tiver só uma pessoa para conversar, ou assim seja você sozinho que terá que fazer a tarefa. Se marcar num bairro para cortar a grama de um terreno, para fazer um campinho para as crianças, e não for ninguém, se você tiver a ferramenta, você terá que cortar a grama até onde conseguir, mas as pessoas ficaram de olho em você. Assim que a gente ganha moral.

A meta é uma comunidade organizada, mas para isso primeiro é preciso a união. Primeiro a unidade, depois a organização. Primeiro une a galera, depois que a gente se organiza. Se você convidar as pessoas para quando chegarem começar: o negócio vai ser assim… É preciso chamar à unidade popular por uma causa, pode ser a reforma política, pode ser: chega de brasileiros indo estudar na Argentina, Brasil sem vestibular, já! Como é que nós que somos cinco vezes mais pequenos que o Brasil e com muitíssimo menos dinheiro, conseguimos garantir ingresso livre e gratuito nas universidades públicas e o Brasil não? Já fizeram as contas se a grana que vai para as particulares fosse para as públicas, para ampliar as vagas? E os royalties da Petrobras para educação? O Brasil não tem como dizer que não tem dinheiro para isso, o que pode não ter é força para conquistar aquilo.

Estou muito feliz com os efeitos que estão tendo as camisas. Dessa vez não sou o chato com o panfleto que vai puxar conversa, a conversa vem a mim. A camisa é uma provocação, que é o que é preciso. É preciso agitar o povo a participar em política, porque o supremacismo avança no mundo, cresce no Brasil e é preciso combater isso, ou o futuro pode ser muito ruim. E o Brasil não é um lugar ruim, é o lugar que escolhi para morar, para comprar casa, para ficar e não tenho outra opção que lutar por ele, por nós.

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