Descompasso

Não é uma crônica, quem sabe vire peça de teatro, precisaria alguém para a composição. 

Descompasso

No cenário a placa de um bar e um isopor.

Ele toca o violino, ela o trombão. Ela está pelos vinte, ele pelos quarenta. Ela é mais bonita que ele. Saem os dois de um bar, com seus instrumentos nas mãos, param no isopor comprar cerveja, trocam olhares. Os dois tocam a mesma nota. Solta uma nota ele, uma nota ela. Solta uma estrofe ele, um estrofe ela, cada um no seu ritmo. Ela solta som de vez em vez, quando isso acontece ele olha embobado. Quando ele toca mostra seu virtuosismo. Ela mexe a cabeça enquanto escuta ele, seus olhos brilham. Ele propõe estrofes para ela responder mas ela não responde. Ele se afasta, ela vai atrás, começa tocar. Solta notas graves, sons baixinhos, com pausas entre as notas. Ele pega uma estrofe e quer levar o som num outro ritmo. Ela continua soando como estava soando. Ela soa só, mostra uma doçura de quebrar o coração. Ela faz soar dor, uma dor pesada, mas de um jeito tão delicado, que lembra Nina Simone. Ele escuta e cai de bunda no chão. Quando ela acaba de tocar vai sentar do lado dele. Encosta a cabeça no ombro dele e chora. Ele abraça ela e ficam um tempo em silêncio. Ele levanta, começa tocar uma música luminosa e dar voltas em torno dela.

Ela levanta e andam juntos pelo espaço soltando estrofes. Soam lindas, mas cada um vai no seu tempo. Soa ela, soa ele, gargalham juntos, mas juntos não conseguem soar bem. Tentam. Ele vai numa velocidade que ela não consegui ir. Ela propõe para ele sons, que ele não consegue chegar. Ela se afasta e começa tocar sozinha, sem se interessar em soar com ele e começa soar mais solta, abrindo um leque de sonoridades, ele vira para ela e se atrai completamente. Chega até ela, intenta acompanhar o som, mas não consegue. Ele não consegue ir tão devagar. A energia dele está muito agitada para andar nesse tempo. Ela toca para ele. Ele toca para ela. Tentam tocar juntos, o descompasso. Choram. Tentam de novo e choram. E tentam de novo, e começa cada um soar mais forte, um joga o som em cima do outro, repete a estrofe como se o outro não tivesse entendido, o som fica cada vez mais insuportável, mais insuportável, se chocam os instrumentos. E choram. Apagam as luzes.

Ligam de novo as luzes, cada um está sentado num canto do cenário, com uma mesa diante. Toca ela, ele sorri. Toca ele e ela escuta sorrindo, também. Quando acaba, levantam, vão até o centro do cenário, se abraçam, e sai cada um por um lado.

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