Aqui ainda estão sem falar do assunto
Fui assistir “Ainda estou aqui” com muita vontade e bastante expectativa; argentinos crescemos ouvindo e assistindo histórias sobre a ditadura militar. Com dez anos morando no Brasil, não conhecia da história de Rubens Paiva, assim que até que não passaram mais de quarenta minutos de filme, assistindo festas da classe alta brasileira, as imagens de uma família da elite super amorosa com os filhos, como as que conheci em São Paulo, não sabia que a personagem principal tinha sido deputado pelo PTB. A obra, feita por um dos homens mais ricos do país, mostra mais da realidade da elite brasileira – com suas funcionárias domésticas morando dentro das casas deles, com essas famílias sem pagar direito para os funcionários-, que da luta da resistência brasileira contra a ditadura. Um Moreira Salles difícil tivesse conseguido contar de outro jeito. Ninguém fuje da sua classe. O jeito de contar a história, lembra os filmes argentinos sobre a ditadura na década dos oitenta, onde ainda não se falava direto sobre o que tinha acontecido. Que nem no Brasil após sessenta anos do golpe.
O filme foi lançado enquanto no Brasil, mais uma vez, existe a possibilidade de serem condenados os militares que atentaram contra a democracia. Enquanto no Brasil sequestravam, torturavam e desapareciam pessoas, os primeiros quarenta minutos Salles mostra a vida de uma família rica nas praias de Rio de Janeiro; filmando cenas familiares com câmera Super 8; cenas de Londres filmadas pela personagem que faz da filha mais velha de Paiva ou cenas que envolem um cachorro. O filme não mostra a ditadura no Brasil, mostra como a ditadura afetou uma família rica, ligada à resistência. Mas o filme, feito por um milionário, mostra bem quais são as condições de vida das famílias mais ricas do Brasil, que enviam seus filhos para estudar no exterior, que tem uma pessoa vivendo em casa para faxinar, fazer a comida e cuidar de seis crianças.
O filme me lembrou o jeito de falar na Argentina da ditadura no inicio dos anos oitenta. Que nem em “A noite dos lápis”, que mostra secundaristas que foram às ruas pelo boleto estudantil – que nem poderia ser a juventude que foi pelo passe livre em 2013-, e não te conta que esses jovens eram militantes de organizações políticas. A ditadura, com a contribuição do escritor Ernesto Sábato, entre outros, espalhou a teoria dos dois demônios. Militares e organizações armadas teriam feito o terror. Aqueles jovens não eram militantes, eram demônios, que espalhavam o socialismo. Escutei Emilce Moler, uma das protagonistas da história que “A noite dos lápis" conta, dizer: "quando foi que a filha do delegado passou ser o monstro, e nenhum dos vizinhos foi perguntar para meus pais: cadê tua filha? Cadê aquela menina que ia fazer as compras no mercado para nós?”. Emilce Moler foi sequestrada porque não achou ninguém que deixe ela se esconder. “Ainda estou aqui” mostra a importância da solidariedade, quando a vida ou a liberdade de quem luta por uma sociedade justa está em risco.
Salles, como todo rico, centra a história numa família boa, legal, solidária, que têm uma mulher vivendo com eles para faxinar e cozinhar, e a mulher tem que reclamar que paguem salário atrasado. E rico sempre tem uma desculpa de por quê não pagou. Na casa de Paiva chegam envelopes, Paiva entrega envelopes, pessoas ligam para a casa dele, e tem conversas que não quer que a mulher escute, mas o filme não mostra a estrutura de inteligência que as organizações tinham na época. Também não conta como é que o exército conseguiu saber que Paiva fazia parte do aparelho de informações. Na Argentina também evitou-se esse assunto por muitos anos. É muito duro falar algumas verdades. Na Argentina, Montoneros, a guerrilha peronista, condenava a morte quem falava sob tortura. Tupamaros, em Uruguai, pedia 48 horas. Consideravam que ninguém podia ser condenado, porque quem falava já não era um sujeito, era um objeto. Teve quem não falou. Teve quem não conseguiu aguentar. A militância também olhou com suspeitas quem sobreviveu. Quem sobreviveu também ficou com culpa por ter sobrevivido. Quem passou pelas experiências que o filme mostra, quem escutou vítimas da ditadura, quem leu sobre o terror desses anos, sabe dos assuntos que é difícil falar. Na Argentina, ainda que condenaram aos militares, padres, ministro da Fazenda, médicos, enfermeiras, parteiras, empresas e empresários, hoje a discussão dos setenta voltou. Eles ainda falando de comunismo, e a gente que parou de falar de revolução.
O filme mostra um homem, que tinha participação política não pública, mas até que o exército não chega deter ele, quem assiste não sabe que foi deputado. Enquanto no exterior eram denunciados os crimes da ditadura, Salles não mostra como é que isso acontecia, conta que lá fora chegavam notícias. Salles escolheu não mostrar as torturas que sofreu Paiva. Não mostra tortura física nenhuma, só deixa ouvir gritos. Mostra aquele militar que contribuiu com a ditadura e disse “eu não estou de acordo com o que estão fazendo”. Sim, existiram desses. Na Argentina alguns foram condenados, porque contribuíram com os crimes de lesa humanidade. As pessoas têm a opção da escolher. Em 1985 Argentina condenou à cúpula dos militares, pela luta das Maẽs e das Avós da Praça de Maio e os organismos de direitos humanos, não pela coragem de um procurador, como mostra Sergio Mitre em “Argentina, 1985”. Os Mitre são a descendência de Bartolome Mitre, fazendeiro que foi presidente da Argentina, que criou o jornal La Nación, a voz de quanto golpe de Estado teve no nosso país. La Nación é o jornal da Casa Grande. Assim contam a história os ricos: as famílias deles são as protagonistas do melhor da nossa história. Porque o filme mostra um rico que fez parte da resistência democrática, em tempos que é preciso fortalecer a democracia. Eu sei que Paiva não era um fazendeiro, mas sem dúvida nenhuma fazia parte do percentil mais alto do Brasil. Que nem fazendeiro, a classe alta brasileira também não respeita os direitos dos seus funcionários. Salles também não mostra os profissionais liberais que contribuíram com a ditadura, não mostra os médicos que iam ver pessoas torturadas, como o médico que observou Paiva e diagnosticou que estava com “abdômen em tábua, o que em linguagem médica pode caracterizar uma hemorragia abdominal, sendo que naquela situação parecia ter havido uma ruptura hepática”, como disse Amilcar Lobo, Tenente‐Médico do Exército, “em depoimento transcrito no Informe nº 1334/86 do Departamento de Polícia Federal, Informe produzido aos 16 de setembro de 1986 e encaminhado à AC/SNI; CIE; CISA e CIM, depoimento prestado em 8 de setembro de 1986 no DOPS/SR/DPF/RJ”, como informou a Comissão da Verdade. Salles é um rico que não mostra a responsabilidade das famílias ricas no desaparecimento de Paiva. Não mostra a participação de médicos, não mostra quem dava as ordens, não mostra a participação civil na ditadura, os maus são só soldados do exército.
Salles não tem como contar a história com narrativa militante, ele só consegue mostrar a realidade como é vista por um milionário. No filme Eunice Paiva demite à mulher que vivia na casa deles, para limpar, cozinhar e cuidar dos filhos, mas não mostra quando ela se despede das crianças. Salles mostra bem como são as casas dos ricos brasileiros, onde filho pede para a mulher que trabalha na casa empurrar a cadeira de rodas da mãe, para fazer foto familiar. O filme chega num momento em que é preciso discutir as consequências de não ter julgado quem atentou contra a democracia no Brasil na última ditadura, mas também em tempos que existe a possibilidade de condenar aos militares que participaram da última tentativa de golpe no último 8 de janeiro. Mas não vamos deixar a responsabilidade dos fatos só nos militares. Ninguém pode imaginar que um plano desse saiu da cabeça do Bolsonaro. Os golpes na região sempre são impulsionados por interesses estrangeiros, em parceria com umas poucas famílias locais.
Que bom que o Brasil vai colocar a discussão dos golpes militares no
país e as consequências de não condenar aos responsáveis, que
nunca são só membros do Exército.

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