“A Sudestada”, uma viagem à Buenos Aires rica

Quer viajar para Buenos Aires, ver como são as típicas casas da cidade, essas que você acha em qualquer bairro? Quer saber algumas coisas do Tigre, aquele município com rio, na área metropolitana de Buenos Aires? Quer ver a importância que na Argentina dão para a amizade? Então recomendo ler “A Sudestada”, de Juan Sáenz Valiente, quadrinho publicado pela editora baiana Trem Fantasma. Sáenz Valiente conta a história de Jorge, um detetive privado contratado por um homem rico, que quer saber o que a mulher faz. Jorge é um homem sensível, amigo dos seus amigos, a quem só quem não conhece da cultura argentina pode considerar um canalha. Longe disso, o autor serve-se da personagem para mostrar as dificuldades que os homens temos para mostrar nossa sensibilidade com outros homens.

Como portenho - isso quer dizer quem nasceu na cidade de Buenos Aires- os desenhos de Sáenz Valiente foram como voltar para casa. O autor mostra essas ruas da cidade que em geral turista não percorre, ainda que a arquitetura das casas que Sáenz Valiente mostra, quem foi para Buenos Aires já viu em San Telmo, Palermo, Recoleta. Uma cidade com uma arquitetura predominantemente europeia, considerando que até 1930 a metade da cidade eram imigrantes, a maioria da Espanha e Itália. Então, os arquitetos que chegaram, os engenheiros, os pedreiros, que nem o meu avô, construíam as casas como eram as casas onde eles moravam. Quem parar nos detalhes dos desenhos, observará que a maioria dos prédios tem sacada, coisa que não é regra no Brasil. Difícil achar em Buenos Aires um prédio que não tenha sacada.

Como o autor conta no final do livro, onde desenha uma história contando do processo de criação da obra, ele não conhecia detetive privado nenhum, de fato, não é uma coisa popular em Buenos Aires, que nem pode ser nos Estados Unidos, e aí está a criação do artista. Mas ele achou um detetive, que contou o truque para conseguir informações. Jorge Luis Borges, o autor argentino, dizia que a nossa particularidade era o valor que damos à amizade. Na Argentina existe categoria amigo e conhecido. E para um argentino é muito esquisito ouvir “Você quer resposta sincera ou resposta de amigo?”. Para nós, argentinos, amigo é sempre sincero, e é aquele que vai te dizer o que achar, pelo teu bem. Existe um ditado, que herdamos dos espanhóis, que diz: “ao pão pão, e ao vinho vinho”. Isso quer dizer: chamar às coisas pelo seu nome. Então, quem não conhece nossa cultura, pode achar que Jorge é um canalha, mas ele não é.

Sáenz Valiente mostra o típico homem argentino: uma vez por semana joga bola com os amigos, geralmente babas mantidos por anos, então dá para ver o peso e tamanho dos jogadores. Mostra as conversas após o jogo, homens compartilhando dores de amores, e ainda que Jorge fale o que pensa para seu amigo, também será quem desenhará um plano para o amigo recuperar a mulher pela que está sofrendo. Para quem tem interesse em conhecer da cultura da classe média e alta argentina, a obra de Sáenz Valiente é um bom caminho.

O autor mostra uma realidade que só umas poucas pessoas conhecem, porque o autor faz parte de uma dessas poucas famílias argentinas com dois sobrenomes, que a gente chama de “sobrenome composto”. Dizer Sáenz Valiente na Argentina, é falar dessas famílias com história entre os fazendeiros argentinos, e que estiveram ligadas a quanto golpe de Estado teve no país. E Juan Sáenz Valiente, mostra como esse tipo de famílias são, por onde circulam, como se relacionam, os segredos que guardam.

A Sudestada mostra a zona norte da cidade e da área metropolitana, que é onde as famílias ricas moram e se movimentam. Quem pegar um mapa de Buenos Aires, e olhar as linhas do trem, observará que parece o desenho de um leque. Buenos Aires é o centro de tudo, e daí saim os trens que vão, ou iam para ser corretos, para todos os cantos do país. O quadrinho mostra a estação de Retiro, onde tem várias terminais de trem, mas as personagens de Sáenz Valiente pegam o trem que vá para zona norte, que vá para Tigre, um município lindíssimo, onde está “o delta”, que é uma geografia formada por vários canais de rios, com ilhas, onde os ricos compravam casa de final de semana, onde está o Museu Sarmiento, que é onde morou o escritor, publicitário, ex-presidente argentino e pai da escola pública. O delta do Tigre era um lugar para se esconder na ditadura; onde as pessoas homossexuais, de classe alta, média-alta, e artistas, conseguiam fazer festas em paz e tranquilidade, sem a repressão da ditadura.

A obra de Sáenz Valiente é de uma beleza comovedora. Mostra as dificuldades que temos os homens para lidar com as nossas emoções. De fato, após se abrir com um amigo, Jorge pede: mas não conta para os outros, que eles são muito rudes.

Quem quiser viajar para Buenos Aires, conhecer um pouco da nossa cultura, se comover com os desenhos e história de Juan Sáenz Valiente, recomendo comprar “A Sudestada” da Editora Trem Fantasma.


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