A cerveja mais gostosa


 

 Fui no aniversário de uma amiga, na Casa do Reggae, éramos poucas pessoas brancas. Era de noite quando cheguei. Ainda não tinha visto a cobertura nova, a chuva não atrapalhou a festa. Nas mesas salgadinhos, e umas cestinhas de massa salgada, com berinjela, e outra com salpicão, que eram uma delícia. Cheguei sem cerveja, porque era para beber no bar do lugar e fortalecer o projeto da casa cultural. Sexta para mim é dia de samba, toda quinta eu mando mensagem para o Mestre: “e aí, meu irmão! Amanhã vai ter samba?”. Eu sei que ainda está muito perto, ainda para ele é difícil. Assim que a gente deixa a vida levar a gente, e sendo que ele respondeu que não teria samba, teve.

Ir para o Santo Antônio é como voltar para o bairro da infância. Minhas primeiras amizades na cidade. Na festa estavam as pessoas que conheço desde que cheguei, pessoas com as quais já passei meus dois aniversários aqui. Pessoas com as quais você já tem a intimidade, de falar besteira e putaria na mesa, e fazer um coral de gargalhadas. Aí é família. Uma fala dos problemas que está tendo com o filho, outra conta do cara que bateu nela, outra com a mão mostra como foi que pegou a faca e colocou no pescoço do ex-marido. Me deu um tesão ouvir essa mulher. Mas é muita areia para esse caminhão.

Chamei o Mestre para fumar fora. Aí soube que tinha planos de tocar. “Cadê o Professor com os instrumentos?!”, disse o mestre, com rosto de impaciência. Na linda Rua do Passo, fumando e batendo papo com o Mestre, ouvindo ele contando do projeto do capoeira, e enquanto conversávamos do assunto, chegou o Professor. “Porra, Professor, que horas são essas?!”, disse o mestre. “Acordou?”, perguntei. “Acordou? Tava trabalhando até agora, tava numa reunião da coordenação da pós”. O Professor entrou na roda, o Mestre continuou contando do projeto. Disse que tinha diferentes papeis, que não todo mundo precisava jogar bem. Há quem toca bem, há quem tem boa voz, e depois, “claro”, disse ele, você precisa aquele que diz: “é só dizer mestre que a gente vai para cima”.

Já quando eu cheguei, o Mestre bateou na minha barriga e disse: “bora treinar?”. Enquanto explicava o projeto eu ia entendendo o convite. O Professor disse “esse aqui na roda, era uma fera. Aliás, tem muita técnica, eu vi ele fazer coisas inacreditáveis”. O Mestre contou que ele entrava para bater mesmo. E entrava com caras que também queriam bater, a roda ia por aí. Ele explicou, que na capoeira, acaba, e as pessoas se dão a mão. Vão ter mais uma oportunidade. E em cada encontro, tem a possibilidade de vencer ou perder de novo. “Você tem pessoas que em toda roda que encontra, continua de novo?”, perguntei. O Mestre riu, corou o rosto. O Professor disse “você está próximo de perder um cliente”. Os três rimos.

Subimos com os instrumentos, escolhemos uma mesa vazia, apoiamos aí as coisas, puxamos umas cadeiras, o Professor com o surdo, o Mestre com o repique, eu com o tamboril e o samba começou. Chapado errei várias vezes. O Mestre me olha com um ódio quando erro, que só Satanás para olhar assim. Os três tocávamos, mas estava faltando uma voz. O Mestre cantava, mas baixinho. O Professor não canta, eu menos. A roda estava começando, o povo ainda não puxava. Faltava ela, a cantora da roda. Mas de seu jeito foi. Tem também na família uma moça que também canta, Muriel chamou ela para cantar no último samba que cantou Muriel, assim que quando ela chegou a coisa melhorou. Ela começou puxar letras de samba no celular e assim foi.

Ainda tendo errado muito, quando quis passar o tamboril o Mestre não deixou. Num dos erros ele me disse: “é ao contrário”. Para mim foi uma revelação. Ainda não consegui descifrar onde é que eu erro. Para mim meu problema é que eu não tenho o desenho da chave musical na minha cabeça. Não consigo saber como é que está dividido o tempo, para saber como estão distribuídos os espaços? Eu já percebi que eu conto cinco, onde outras pessoas contam outro número, ou que eu começo contar, depois de onde o outro contou. Ontem estava chapado e não consegui me segurar. Mas os olhares do Mestre são as valisas para me encaminhar no ritmo.

Alguma vez alguém passou o instrumento para mim, assim eu gosto de passar o instrumento. Ontem tentei o Mestre me deu um desses olhares fulminantes, que dizia “se você passar esse instrumento, desgraça, eu acabo com você”. Quando a filha dele pediu, eu passei, e ele não me olhou. Ontem teve um momento maravilhoso, para mim, que foi quando o Mestre se empolgou e fez esses solos no repique. Eu pensava, bom, mínimo não estou atrapalhando. Aos poucos vou conseguindo manter o ritmo, e também conseguir dar atenção às estruturas que os outros instrumentos estão repetindo. E após que o Mestre botou para fora todo aquilo e com tanta beleza, o povo da festa bateu palmas. E foi aí que chegou a cerveja mais gostosa.

Acho que é a segunda o terceira vez que me acontece. Nossa amiga, que estava fazendo aniversário, botou três cervejas na mesa e disse: para os músicos. Faaaaaa. Imaginem eu. Essa é a cerveja mais saborosa que há. No último samba que tocou Muriel, para tocar não era mais que a gente. Se eu não tivesse pego o tamboril, ficava com o Mestre. Ele era o diretor da orquestra da mãe. Aquilo de ontem, vou lhes dizer, cena de filme.

Pensem num terraço, metade protegido com cobertura, visual de casas coloniais, igrejas, o mar da Bahia de todos os Santos, a chuva tropical, e uma roda de samba sob as lonas verde, amarela e vermelha. As sextas em Salvador podem ser assim.


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