O ano começou

Acabou o carnaval. Agora só São João, depois Natal. Dezembro é que começa o tempo da festa no Brasil, e tudo para até o carnaval passar. Como é bom morar no Brasil. O quê dizer de morar em Salvador. Moro numa comunidade, no Rio Vermelho, cinco minutos andando até o mar. A casa que alugo tem quintal, as galinhas e os galos dos vizinhos andam por aí, enquanto escuto “Um corpo no mundo”, da Luedji Luna. É impressionante a força da alegria. Minhas pernas estavam doendo muito, uso palmilha e pulei dois dias de sandália. Ontem foi no Pelourinho, tinha homenagem para Zete. Toquei no carnaval de Salvador. Me fala de felicidade.

Morando no Santo Antônio além do Carmo, conheci o Samba da Zete, na escadaria do Passo. A melhor rua do bairro. Há de se disser, que nesses últimos tempos tem ficado um pouco perigosa. Acho que pela falta do samba dela. Toda sexta ela enchia a rua. Brown, o filho dela, conversava com aqueles que gostam de usufruir do esforço aleio, para não levarem dos seus clientes. Eles precisam da barraca para viver. Denuncias de vizinhos tiraram o samba por uns meses, chegou a fiscalização da prefeitura, com Guarda Municipal bem armada. Fiquei conversando com o chefe dos policiais, mestiço, acompanhado de dois homens negros com armas nas mãos. Pela posição em que o fuzil de um deles estava, ficou apontando para mim. Pedi para o policial se podia apontar para um outro lugar. Ele disse “aponto para quem eu quiser”. Eu: “Não aponta para mim”. O cara tirou a trava e repetiu: aponto para quem eu quiser.

Virei as costas, a galera da fiscalização disse para Zete quais papeis precisava para conseguir fazer o samba de boa. Em janeiro o samba voltou. Ano passado comemorei meu aniversário aí. Esse março será diferente sem ela. Mas esse sem ela… O que foi o samba de ontem, minha gente. O que é esse samba para mim. É o primeiro samba de rua que eu frequentei, que fiquei de ladinho batendo palmas, onde por primeira vez alguém deu um instrumento para mim, onde um dia Taiala, a nora da Zete, perguntou para mim se eu queria fazer curso de percussão. E comecei estudar com Brown. E comecei tocar na roda.

Não quero nunca mais viver sem samba. Quem sabe o próximo ano ganhe coragem, e dê uma passada pelo circuito da Barra. Só de pensar me dá agonia, mas quem sabe consiga. Mas já estou com desejo pelo próximo carnaval. Como é lindo ver o povo sorrindo na rua. O povo feliz. Voltou o carnaval, voltou Lula. Passei o carnaval sem beijar uma boca, e saí sem o telefone. Vacilei. Fui de telefone para o Pelourinho.

Bom, agora é que o ano começa. Que voltam as respostas. As instituições deixam muitas respostas para depois do carnaval. Porque no Brasil existe o tempo antes e depois do carnaval. Tem coisa que é para falar só depois do carnaval. E antes de dezembro começar. As crianças já estão na escola. Bola pra frente. Agradecer a China por fornecer ao mundo de telefones acessíveis aos trabalhadores, porém, quando chegar o próximo carnaval, ainda estarei pagando o aparelho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Meu vizinho bolsonarista

A verdeamarela é de todos, a vermelha só nossa

A noite anterior e depois