Meu primeiro carnaval em Salvador
Levo nove anos morando no Brasil. Morei em Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo e há um ano e meio em Salvador. Também conheci o carnaval de Olinda. Mas o de Salvador… Uma festa negra e popular.
Dá para dizer que começou quando o carnaval? No Furdunço? Esse dia fui andando desde Rio Vermelho, vendo pessoas negras, pardas e pobres, montando as barracas, nos pontos que passaram a noite toda cuidando, dormindo na calçada, as vezes com crianças. A maioria mulheres, logicamente. Nem é preciso me estender sobre a responsabilidade social e familiar das mulheres.
Na orla toda, na frente dos camarotes, filas de pessoas negras aguardando ingressar para trabalhar, todas uniformizadas: terno e gravata preta, camisa branca; camisas indicando que a pessoa está fazendo limpeza. Branco tem mania de deixar à vista quem está servindo eles.
É impressionante a quantidade de pessoas que trabalham para o carnaval acontecer. Dentro dos trios elétricos, no mínimo, são umas quinze pessoas trabalhando, além dos músicos. Sem falar na quantidade de pessoas que estão na cordinha, andando e se esforçando, aguentando a pressão de quem esta de festa. Mas claro, esse povo está acostumado à pressão. É sobre eles que sobra a pressão social toda. Ontem, no Campo Grande, tinha uma mulher de uns sessenta anos, que dormia em pé, segurando a corda.
Mas o carnaval tem esse poder tão mágico, que os catadores de latinha botavam a mão nas poças de lama, dançando. Vi um moleque de uns dez anos, com mochila escolar nas costas, catando latinhas de sorriso. Vi muita criança trabalhando. Nunca tinha visto tantas. Claro que os carnavais que conheci foram antes da Pandemia e quando a Desgraça ainda não tinha feito tanto dano. Mas que bom que esse carnaval dará para mais de uma família fazer uma diferença, e poderem botar mais carne no feijão, quando não, carne.
Carnaval exige de mim um esforço mental muito grande. Não consigo ficar onde não consigo me movimentar ou fugir quando precisar. Claro que faço o esforço para controlar a agonia que me dá, o psicólogo que mora em mim tenta me explicar os motivos, fala para eu fazer controle mental, pensar que está tudo bem, mas um caralho. Não é mental o negócio, é físico. Quando o ar começa ficar viciado de mais, preciso fugir. Felizmente, no Furdunço, fiquei de camarate, mas foi casualidade.
Cheguei em Ondina antes do negócio encher. Fiquei aguardando um amigo, no ponto que tínhamos marcado, pensando como faria ele para me achar. Ouvi, puta que pariu! Olhei e vi um cara xingando por ter enfiado o pé numa poça de água. Pensei: é aí. Aí vou ficar, as pessoas evitam pisar na água, meu amigo vai me achar fácil. Vou ter um metro sem ninguém do lado. E aí minha cabeça disse: Santi, um metro sem ninguém do lado! Assim que esse foi meu camarote, fiquei na beira da poça, com um metro quadrado de ar livre, vendo os blocos passar.
Mas ontem no Campo Grande foi de boa. Quem sabe foi porque fiquei perto da praça, onde saiam os trios elétricos. Para um argentino, ver Olodum ao vivo, é assistir o show de uma banda internacionalmente conhecida. E disse, atrás desse trio elétrico, eu vou. Não fui mesmo atrás, fui do lado, e depois me enfiei na pipoca. Vendo essa quantidade de homens pulando com a guarda em alto, pensei no fato dos melhores boxeadores brasileiros serem baianos. Quando me enfiei, vi uma mulher negra me olhar surpresa, do branco entrar para pipocar. Mas tem coisa mais linda que festa popular?
O carnaval segue, também seguiram essas crônicas. Quem sabe o que essa festa está nos reservando...
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