A beleza judia
Se tem coisa que sinto saudade de Buenos Aires é da beleza judia. Quem sabe, vai me perguntar: judia de onde? Sei que não é a mesma beleza a asquenazim que os sefarditas, por colocar só dois exemplos. Quando morava em Florianópolis, no verão chegava toda a rapaziada que acabava de sair do serviço militar obrigatório. O que são aquelas mulheres judias com pele árabe... Cor de árabe, nariz de judia, redonda na ponta, uma delicia. Cresci em bairro judeu, Villa Crespo. Muitos brasileiros que foram para Buenos Aires, andaram por Villa Crespo, achando que andavam por Palermo. Cresci na rua Murillo, onde milhares de brasileiros compraram casacos, do lado de uma sinagoga. Dessa sinagoga que vou contar. Quiseram mudar o nome de uma área do bairro, para Palermo Queens. Rico é uma desgraça. Bicho burro, tem mal gosto, é cafona, bota dois leões na porta da casa branca.
A diferença de São Paulo - a maior comunidade judia do Brasil-, historicamente os judeus na Argentina eram de esquerda. Grande parte do Partido Comunista Argentino era judia. Judeus comunistas emigraram para Argentina. Eu fiz o jardim de infância no Clube Atlanta, naquela época o time jogava na Primeira Divisão. Os diretivos do clube eram judeus comunistas, ano 83, ainda ditadura militar, e eu tive professor no jardim de infância. Eduardo Nachman, o cara parecia com meu pai. Barbudo, alguns quilos a mais. Eduardo que me ensinou nadar. Ele é de Mar del Plata. O pai dele um grande ator e diretor de teatro, amigo dalguns dos maiores escritores e intelectuais desse continente, foi desaparecido durante a ditadura militar. Na sala, Eduardo fumava, porque teve uma época que professor fumava na sala, e ele escondia o cigarro aceso debaixo da língua, ou sei lá onde, mas o negócio é que o cara abria a boca, mostrava para a gente, e não dava para ver o bagulho, mas ele pedia para você bater na barriga dele e, plop! O cigarro aceso na boca do Eduardo.
Encontrei Eduardo quando eu tinha vinte e trés anos. Foi numa festa de H.I.J.O.S. F.I.L.H.O.S seria em português: Filhos e Filhas pela Identidade e a Justiça, contra o Esquecimento (Olvido) e o Silêncio. Ele foi meu professor entre os três e cinco anos. Foi quem me apresentou o mundo debaixo da água. Eu vi ele, me aproximei e disse "Eduardo". Ele olhou para mim, eu disse: eu fui aluno teu, Santiago Gómez. Ele olhou para minha cara e disse: eu tenho uma foto tua no armário da escola onde trabalho. Você está de gravata. Sim, senhoras e senhores. Jardim de comunistas, todo mundo ia como tivesse vontade, e eu disse para meu pai que queria ir de gravata para o jardim. Meu pai mestre maior de obras, filho de pedreiro, comunista, barbudo, com bolsa de couro, e o filho pedindo para ele ir de gravata para a escola. Ele comprou duas: uma azul e outra vinho.
Eduardo tinha uma irmã lindíssima: “la Colo”, “a ruiva”, seria aqui. Na Argentina a gente chama ruivas de “coloradas”. Colorado é sinônimo de vermelho, em castelhano. A minha primeira namorada é judia, e me deixou por goi. Os judeus chamam goi aos não judeus. E assim como entre as pessoas negras discutem a mistura de cores, entre os judeus também há quem faz questão de não misturar com os de fora. Porque judeu é comunidade. Que nem negros. Um assegura a mão do outro. São rede. E o tio dessa minha primeira namorada, eu tinha onze anos, disse para ela numa festa, que o pai não estava gostando dela andar com um goi. E ela chegou e no nosso seguinte encontro disse que a gente não podia seguir namorando, não deu explicação nenhuma, virou as costas e subiu no apartamento.
Eu tinha acompanhado essa menina na sinagoga, na sexta. Senti a xenofobia dos meus amigos e colegas da escola, quando perguntaram para mim: você colocou aquilo na cabeça?! Aquilo é a quipá. A gente tinha se conhecido nos bailinhos do Scholem Aleijem, a escola judia do meu bairro. Nos sábados organizavam bailinhos, para juntar grana para a viagem de final de curso, no sétimo grado, as crianças vão com doze anos, treze quem fez após junho. Leonardo, um amigo do prédio em que eu morava, estudava no Scholem, e me convidou para a festa. E eu adoro dançar, desde criança. Curto mesmo. E foi nessa escola que eu conheci Ianina, mas após o atentado à Embaixada de Israel em Buenos Aires, em 1992, os bailinhos acabaram. Apareceram os blocos de concreto nas frentes das sinagogas, das escolas judias, coisas que antes no existiam. Dois anos depois, 1994, o atentado à Associação Mutual Israelita Argentina. Soube do trabalho da AMIA também por Ianina. Também em noventa e quatro foi que o pai dela faleceu, ela já tinha perdido a mãe quando tinha quatro anos, e foi morar com uma tia. Pela sua condição de judia a AMIA repassava uma ajuda econômica, para a tia criar Ianina e os dois irmãos. AMIA hoje é super de direita.
Aqui em Salvador é onde tem a maior comunidade galega do Brasil, comunidade da qual também faço parte. Lembro uma vez que o Leonardo disse que ia contar uma piada de galegos, na Argentina piada de galegos é que nem de portugueses no Brasil, e eu perguntei se eu podia contar uma piada de judeus. Leonardo disse que não, que não dava para comparar. Eu disse que minha família era galega, eu tinha nascido no centro galego, e chamo Santiago por Santiago de Compostela, então por que eu sim devia ouvir a piada dele? Nenhum contou piada alguma. Mas Leo sempre foi um grande amigo. Anos noventa, o pai de Leo confeccionava roupas no Once, outro bairro judeu, e fazia aqueles casacos universitários yankees, com L.A, N.Y, e eu pirava, mas nunca consegui comprar um. Leo usava, era um pouco gordinho, que nem eu, e não ficava o casaco como devia ficar. Mas judeu nisso é que nem negro, quer usar, foda-se!
Vocês não imaginam o bem que faz para mulheres argentinas morar no Brasil. Quando mudei para aqui eu era casado com uma argentina. A gente entrou no Brasil com bastante mais peso que quando a gente se conheceu. Em Porto Alegre a gente se inscreveu no YMCA, para fazer natação. Um dia entrei primeiro na piscina e fiquei aguardando ela. Tinha dois caras do meu lado, que quando viram ela vir, um deu uma cotovelada no outro e os dois sorriram. Eu disse para ela: “amor, aqui você é gostosa. No trabalho já ouvi que quem gosta de osso é cachorro”. Uma outra amiga argentina, que morava em Florianópolis, mede um metro e oitenta, quase. É forte. Na Argentina sofre com a imagem, na Ilha tinha vinte abutres sobrevoando ela.
E judia tem um negócio que eu gosto, e é que tem peito. Também bunda. Mas é aquele negócio do nariz o que faz elas tão bonitas, eu acho. Claro que nem todas, né. Ianina tinha um nariz pequeno, era a típica beleza hegemônica branca, a menina branca, magra, loira e de olhos claros. Continua sendo uma mulher muito bonita. E a gente se dava bem, era engraçado. Mas ela dizia que eu era o bebê dos Dinossauros da Disney, que repetia: “me ama, me ama, me ama”. Quando o pai faleceu, uma amiga dela me disse: é agora, se aproxima. E o idiota que já era aos catorze anos disse: “eu não vou me aproveitar da situação, se é para ser, será”. Passou um carcará, e não deixou passar. Durante anos sempre ficou um negócio entre os dois, até que fui no casamento dela. Foi engraçado, o pai do namorado chegou e me disse “Ah, você é o famoso Santiago”. E eu pensei, bom, não fui só eu que saiu por aí contando a história.
Teve uma outra judia que foi tudo o que eu tinha que evitar, e, Oh, Senhor, Aleluia, obrigado por ter me dado forças para ter saído dessa casa dois meses antes do meu casamento! Psicóloga, psicanalista. Buenos Aires está cheia de psicanalistas e a psicanálises está cheia de judias, e judeus também, mas a maioria na psicologia, na psicanalise, são mulheres, é um fato. Pele marrão, cara de árabe, forte de quadril. Quadril maior que as costas. Ativista, lutadora pela desmanicomialização, conhecei ela no primeiro seminário que eu dei. Minha ex-mulher participou de todas as aulas, assim que nunca deu para ir a beber após uma classe.
Mas a gente acabou se encontrando, ela me chamou para jantar na casa, tinha seu “in door”, trouxe um frasco com os camarões plantados por ela. Ela também escreve. O papo estava alucinante. O tesão começou crescer, brincadeiras com linguagem, sentido duplo nas coisas, pedi para ela abrir a porta para mim. Quando saí disse: caso em dois meses, não posso fazer merda. Merda era colocar meu casamento em dúvida. Se eu beijava a mulher, e o santo batia, não ia ter como fugir.
A gente acabou se beijando numa das minhas viagens a Buenos Aires. Na última marcamos para nos encontrar, me deu bolão, e sou rancoroso. Nem sei quando vou, o tempo nunca é suficiente para todas as pessoas que gostaria de ver, a gente marca e você faz isso com meu tempo? Me enviava mensagens falando de morar na Bahia, que como seria, que pensava em sair de Buenos Aires com o filho. Mas como disse Lacan, roubando um ditado chinês: é preciso estar no nível do que desejamos. Porque se o nosso desejo vai num sentido, e a gente está indo num outro, essa distancia gera desconforto.
Gosto da inteligencia da mulher judia. Gosto da inteligencia em geral, mas a particularidade da cultura judia são as brincadeiras com a linguagem. Freud, judeu, pesquisou o chiste e sua relação com o inconsciente. Engraçado que fui procurar como era a tradução ao português do texto, e coloquei “Freud piada”, sem aspas, mas veio a tradução como chiste. Eu teria usado piada. Mas é isso, existe o famoso humor judeu. São piadas breves, afiadas, inteligentes. Será que a charada tem origem judia? Há pesquisas que dizem que 97% da população de Pernambuco tem sangue judia. Que por lá passaram os que viraram os judeus ricos de Nova York, tá provado.
Um dia vou escrever um conto onde a personagem se apaixona por uma agente da Mossad. Vai ter a cara da Andrea. Andrea me levou para trabalhar no centro de saúde mental que ela coordenava, numa instituição judaica. Pelo condição de judias, pessoas sem recursos e com sofrimento psíquico recebem tratamento. Eu trabalhei dando aulas, e também como supervisor da equipe. A última foi por internet, governava Macri. Mas voltando a minha fantasia com a agente da Mossad, tem uma coisa que eu admiro muito do povo judeu, que é a moral. A cultura judia é uma cultura que eu gosto, não gosto da católica, acho a cultura judia muito mais divertida. Entre os primeiros livros que li está Relatos do Talmude. São relatos com tom de fábulas, quem sabe certa mitologia hebraica. Me perdoem, pessoas judias que lerem isso, se eu errei. Só que eu pinto esses relatos do Talmude, com as cores dos relatos das mitologias, histórias que deixam aprendizados.
A minha mãe lia mitologia grega para eu dormir. Não tinha como eu não virar psicanalista. Quando comecei escrever sistematicamente, entendi que se eu não tivesse sentado no divã com onze anos, eu teria começado escrever muitíssimo antes. A psicanálise era aquele espaço onde eu conseguia dizer o que lá fora não conseguia. Eu sangrava. Literalmente. Com dezesseis anos eu tinha colites ulcerosa, foi o ano que internaram minha mãe no psiquiátrico. Não colocava nada para fora. Aí foi que voltei com a minha primeira psicanalista. Eu tinha parado com doze anos. Entre os treze e os dezesseis, a minha mãe repetia “você precisa voltar para terapia”. Eu repetia que iria com Gabriela ou com ninguém. “Santiago, eu não tenho como pagar Gabriela”, dizia minha mãe. "Eu não conto duas vezes a história", dizia eu e fechava a conversa. Voltei com Gabriela um mês antes de fazer dezessete, paguei as sessões com meu trabalho. Comecei trabalhar com dezesseis para pagar o curso de mergulho.
Agora eu leio mitologia dos Orixás. Quanto mais lindo ler o mundo em termos de força. Porque no final das contas, é o que é. Você pode dizer o que quiser sobre a realidade, o real, a subjetividade, o indivíduo, tem maluco que diz que a terra é plana, mas ninguém pode dizer que a gente não existe sobre uma Terra que tem um núcleo, que tem no núcleo um núcleo duro mineral, onde é difícil se aproximar, por uma questão de força, de energia. Nosso corpo é um sistema aberto, com cinco canais abertos recebendo informação o tempo todo, que será processada pelo cérebro, que está formatado pela linguagem. E a linguagem está ordenada, conforme a correlação de forças sociais de um momento histórico determinado. A ordem da nossa linguagem é colonial. A gente vai acabar com essa merda.
O
time do meu bairro, Atlanta, tem o apelido de “boêmios”. Mas também são chamados de "os judeus". As torcidas canta coisas nazistas contra o time. O
clássico de Atlanta é Chacarita, “os funerários”, porque no
bairro de Chacarita fica o cemitério. Já aconteceu da torcida de
Chacarita jogar sabonetes ao time de Atlanta. Villa Crespo é bairro
de boêmios, de tango, de literatura. Juan Gelman, um dos maiores
poetas da língua castelhana, é de Villa Crespo. Osvaldo Pugliese,
grande mestre do tango, também. Hoje uma estação do metrô da avenida
Corrientes, leva o nome dele. Quando cresci e fui pesquisar a
história, soube que o bairro cresce após a criação da Curtume
Nacional. O bairro tem o córrego Maldonado, a água indo para o
rio da Plata. Isso gerou emprego, boteco, tango e poesia. Chegavam os
imigrantes russos, polacos, fugindo da fome, fugindo da guerra. E
tudo isso deu no bairro em que eu nasci. Bairro de oficinas de carro, confecção de roupa, pequenas industrias.
Gosto do tesão da mulher judia. Tem um filme argentino que mostra isso muito bem. A mulher judia, mãe de adolescentes, atiçando os amigos do filho. O nome do filme é “Cara de queso”, “Cara de queijo”. Aí mostra os judeus de classe média alta, não são milionários, mas tem um nível de vida muito alto. Tem algumas coisas que as vezes acho semelhantes entre o povo judeu e o povo negro. Notadamente é que são dois povos que foram escravizados. Claro que para mim, a beleza negra é muito mais bela que a beleza judia.
Quem sabe o motivo desse texto não foi mais que compartilhar que as vezes bate a saudade, ou a saudade começa quando escrevo, e vou caminhando pelas ruas do meu bairro, enquanto vou contando história.

Lindas palavras. Saudade é também porque escreve, produz sentido, lembra (^^)
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