A dor da impotência

 


Quando é que vão parar? Ninguém pode parar eles? O problema de quem tem mais força é esse, impõe sua força, e quem evita? Penso em Israel bombardeando Gaza, vejo jovens israelenses matando crianças, que andam de bike pela rua. Penso no policial negro, batendo no jovem negro, e a comunidade vendo, sem fazer nada, porque sabe que se agir, também pode apanhar, ou levar tiro. É um problema de covardia, ou da força do medo?

Apanhei do pai, até os onze anos. Até hoje, trinta e dois anos depois, carrego as marcas daquilo. Quando era criança, tinha um amigo que gostava de brigar, treinava para isso, fazia karatê. Eu perguntava para ele: mas quando é que o outro para de te bater? Era a pergunta que eu me fazia: quando é que meu pai vai parar? Isso não impedia eu fazer aquilo que meu pai proibia. Sabia que de qualquer jeito iria apanhar, seja pela caligrafia nos cadernos, seja porque caiu o garfo enquanto comia, seja por alguma coisa que falei. Então, diante da certeza de que iria apanhar, ia jogar bola na praça; atravessava a avenida, quando a bola ia do outro lado. Concordei com Foucault, quando li que “um dia a repressão fracassa”. Mas sabia disso antes de ter lido.

Minha mãe era amante do cinema. Meu avô é um dos fundadores do sindicato de trabalhadores do cinema na Argentina, de criança, e adolescente, minha mãe entrava de graça, em todo qualquer cinema. Em oitenta e oito chegou o video reprodutor em casa. Em noventa e um, meus pais separaram, e eu passei ser o companheiro de filmes da minha mãe. África do Sul ainda viva no apartheid. Minha mãe gostava de ver filmes que denunciavam o racismo. Com nove anos assisti “Mississípi em Chamas”. Minha mãe alugava filmes que alimentavam meu ódio pelos Estados Unidos. Um dia ela me disse: “Mandela disse, que se os negros resolvessem botar veneno, na comida dos brancos, na mesma noite, acabariam com todos eles em um dia. Todos eles são servidos por pessoas negras”. E eu fiquei pensando: por que não fizeram?

O medo é um grande disciplinador. A tortura, as chibatadas, os chutes nas costelas, os socos na cara, deixam marcas no corpo, deixam ele duro. Você vai insensibilizando o corpo. Existe uma questão orgânica: se você estimular muitas vezes um mesmo lugar, o estímulo vira energia, e vai pelo sistema nervoso; mas quando é um estímulo constante, o sistema nervoso satura, os nervos pelos que vai a transmissão ficam cheios, que a dor vira uma constante, e ao mesmo tempo, você consegue aguentar. Com o primeiro soco, a cabeça faz boom. Depois acaba sendo um booooooooooom constante. A gente precisa desconectar, pensar em outra coisa, tentar não sentir, para que seja mais suportável.

Nas ruas de Salvador, você vê milhares de pessoas com o rosto duro, rígido, um olhar triste, sem esperanças. Dá para ver que não foi o vivido por ela, que deixou a pessoa assim. São séculos. A mãe que cresceu com o rosto duro, a avó que cresceu com o rosto duro, a bisa que levava chibatada, sem chorar. “Não iria dar esse gosto para eles, não me veriam chorar”, disse a bisa para a neta. A neta foi a primeira que entrou na escola, fez até quarta série. A bisneta que conseguiu acabar o ensino médio, e ingressar na universidade. Onde anda com o rosto duro, de gerações de chorros engolidos. Existe uma relação entre os olhos e a garganta. As vezes, se a gente engole, chora. Outras que se não engole, e chora, acaba se afogando.

E é tão duro sentir e ver. Porque a vida é leve, para quem não sente nada. Mas eu não vou perder a fé. Nem sempre foi assim, nem sempre será. Eu sei que não vou ver, mas nem sempre será.

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