Meu relacionamento com um genocida


 

24 de março e sonhei com ele. Ele não estava como ele, estava com a cara do Jano, o filho do meio, mas estava solto, livre. Não era na casa dele, nem lembro onde é que encontrei ele, era alguma espécie de evento social, e ele estava aí. Aniversário do golpe na Argentina e eu sonhei com Delmé.

Delmé, Hugo Delmé, pai do meu amigo Diego, foi meu vizinho, no prédio em que eu morei até os vinte anos. Eu brincava na casa deles, onde você era obrigado usar “patins”, que são uns panos de lã quadrados, que você pisa, e anda pela casa patinando com isso. A mulher deixava o chão de madiera brilhante. A esposa de Delmé, Quita, era uma mulher completamente reprimida, tinha um olho cego, e fazia o melhor mondongo que já comi na vida. Ou pode que seja o que Freud chamava de “primeira vivência satisfatória mítica”.

Também no décimo andar, morava Pedro, que foi o namorado da minha mãe. Eles acabaram o relacionamento, mas o nosso nunca acabou. Nunca moramos juntos, mas ele fez para mim de pai e eu fiz para ele de filho. É um pai que adotei. Afrodescendente, neto de brasileira, tem quase dois metros, cabelo e barba crespos. Pedro é tangueiro, filho de açougueiro, gosta de jogo, já teve cavalo, já deixou muita no 21. Pedro é o cara que não cozinha. Jantar com ele, até ele casar, era sempre comer em restaurante. Eu adorava. Minha adolescência toda passei indo no cinema com ele, e depois íamos jantar e conversar sobre o filme.

A vez que Pedro me contou, jantamos na casa dele, porque já era casado com quem foi advogada da minha mãe, no processo contra meu pai, e não tinha mais como ocultar. Nessa época eu militava no partido Encontro pela Democracia e a Equidade, coordenava a área de saúde do Observatório de Políticas Públicas, e quem coordenava a área de Direitos Humanos era Hugo Cañón, o primeiro procurador em declarar a inconstitucionalidade das leis de obediência devida e ponto final, isso queria dizer: “os militares estavam obedecendo ordens, já julgamos os comandantes, ponto, deu”. Como militante, conhecer Cañón foi uma das coisas mais maravilhosas que me aconteceram na vida. Era uma pessoa ética. Correu riscos.

No jantar, fui como um filho orgulhoso contar para o pai, com quem tinha tido uma reunião no partido, e disse com um misto de intriga e alegria:

- Você não sabe quem eu conheci! Hugo Cañón. O cara que…

Não consegui acabar que Pedro com sua voz estrondosa disse:

- O que mandou Delmé para cadeia.

- O quê?! - disse e fiquei gelado.

- Claro, ele era procurador em Bahia Blanca e Delmé lá era um dos responsável de um Centro Clandestino de Detenção.

Além de ficar com o corpo duro, senti asco. Senti o corpo sujo de ter querido esse cara. Porque eu gostava dele. Quando eu tinha oito anos, meu pai começou pedir para o cabeleireiro raspar meu cabelo. O inverno em Buenos Aires é duro, então ele comprou para mim uma viseira de pana preta, ele me disse: “tipo a dos Beatles”, mas cresci e soube que era “tipo a do Lenin”. Um dia ele disse: “por quê não vai no Delmé pedir umas insignias para botar na viseira, vai ficar de boa”. Eu também achei. Com Diego brincávamos com seus aviões militares, eu assistia S.W.A.T na televisão, e lá fui. As insignias eram metálicas, de cor amarelo, ganhei um sol, estrelinhas, espadas cruzadas, monte de coisas. Que foram do uniforme de Delmé ou de alguns dos filhos.

Eles eram a típica família militar. Os três filhos homens de Delmé, militares, a filha, professora de educação física. Os dois irmãos mais velhos do Diego eram bem maiores do que ele, porque eu era criança e eles já estavam no exército. Um era paraquedista e o outro estava na infanteria. Diego ia numa escola militar. Eu assistia os desenhos de GI-JOE, tinha alguns bonecos, e via aqueles dois com toda a farda e eu pirava, os caras contando que pulavam de aviões, o outro que andava de tanque.

Mas o que eu mais gostava de ir na casa deles não era isso, também não era a comida. Não tenho lembranças de ter comido lá, era Quita quem tocava a campainha em casa, quando fazia mondongo, ou bucho ou dobradinha, no sul até chamam de mocotó, mas é desse prato que estou falando, e quando meu pai abria a porta, ela toda vermelha, limpava as mãos no pano de cozinha que levava na saia, e dava a vasilha de barro para meu pai. “Carlos, como sei que você gosta, eu trouxe um pouquinho”. Meu pai dividia comigo, ninguém mais gostava em casa. Minha mãe sempre tirava sarro dos motivos pelos que Quita dava de comer para meu pai.

Eu me divertia muito na casa deles, porque Delmé com os filhos, me faziam uma brincadeira que eu adorava: ele me fazia desaparecer. Um dia veio e me disse: quer que eu te faça desaparecer? Como assim, respondi com uns seis, sete anos. Eu te faço desaparecer, eu faço um movimento com a mão e você desaparece, ninguém mais te vê, fica invisível. Como assim que invisível? Invisível, repetiu ele e disse para os filhos militares: não é verdade que eu consigo fazer desaparecer ele? É, responderam os filhos, e assim foi que Delmé fez um passe que achei mágico, e disse: Bualá!, e os filhos perguntaram: cadê Santiago? Os filhos, Quita, Diego, Nany, todo mundo participava da brincadeira. E como sempre nessa brincadeira, param quando a criança fica angustiada, de acreditar mesmo que tenha ficado invisível.

Por isso senti asco quando ouvi: o que mandou para a cadeia Delmé. Porque eu ia a na casa dele e pedia para fazer a brincadeira, porque eu gostava também. O asco,  sensação do corpo sujo que tive, era de saber que eu tive bons sentimentos por esse cara. Por um cara que desapareceu pessoas, de um cara que com certeza sabia que meu pai era comunista, porque meu pai pedia morto de medo que eu não gritasse pela varanda “Viva Izquierda Unida”, que era o partido que meu pai votava.

- Como eu nunca soube nada? - perguntei para Pedro. Em casa nunca ninguém falou.

- Mas teus pais sabiam, tinha aparecido o nome dele em algumas revistas, quando começaram os juízos o nome dele apareceu. Tu pai devia saber, porque alguma vez conversei com tua mãe sobre o assunto. De fato, eu tive um papo de frente com ele.

E aí foi que Pedro me contou, que um dia a filha dele disse para a filha do Delmé, que os militares eram todos assassinos. A menina, logicamente, ficou mal. Pai e irmãos militares. Delmé foi tocar a campainha na casa do Pedro e reclamar, e Pedro respondeu: “tua filha não tinha por quê passar por aquilo, mas na minha casa das pessoas como você pensamos assim, boa noite”, e fechou a porta.

Como disse Jorge Rafael Videla, um dos ditadores e genocidas, que foi preso com o retorno da democracia e indultado por Menem, para eles "o pior momento chegou com os Kirchner”. Delmé foi preso após a derogação das leis de obediência devida e ponto final. Morreu preso, com oitenta e dois anos, em 2017. 

Após que soube que estava preso, liguei para a casa, para tentar entrevistar ele, mas pela conversação com a mulher, soube que não iria dar. "Você viu Santi, esses esquerdistas, a injustiça que estão cometendo com ele". Não ia ter como chegar nele. Eu já não era mais Santi, eu era mais um esquerdista. Quando soube que estava preso, quis que ficasse até os cem anos, que seu sofrimento fosse bem longo. Mas já morreu, e é bom saber que o mundo ficou um pouco mais limpo.




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